Quais os benefícios de treinar sem celular ou smartwatch?
Especialistas explicam como treinos sem celular ajudam a aumentar a consciência corporal, reduzir a sobrecarga sensorial e fortalecer o foco durante o exercício

Um clube de treino de Minneapolis, nos Estados Unidos, decidiu banir celulares e smartwatches dos encontros semanais. A medida busca reconectar os participantes com as próprias sensações durante exercícios de alta intensidade.
O Training Group MN é um grupo de treino por convite que se reúne toda terça-feira à noite na base de uma pista de esqui na região metropolitana de Minneapolis. Desde 2025, o clube exige que celulares e outros aparelhos eletrônicos fiquem trancados no carro ou em uma caixa coletiva antes do início da atividade.
Durante uma hora, os participantes correm, caminham, sobem e descem a colina, e em alguns trechos chegam a rastejar. As regras também pedem roupas pretas e proíbem a presença de filhos e animais de estimação.
Treino guiado pela respiração, não pela tela
Nate Kosberg, CSCS, professor de ioga e personal trainer da academia Life Time e ex-lutador de muay thai, integrou os encontros do grupo nos verões de 2024 e 2025.
Kosberg descreve a proposta do grupo ao site Experience Life como uma forma de reforçar o vínculo entre os participantes pelo esforço físico compartilhado, e não pelo registro documentado em aplicativos. “Treinos sem tecnologia nos dão a chance de diminuir o barulho de tudo mais e nos conectarmos com nós mesmos”, diz o treinador. “Eles são uma oportunidade de não fugir do que está à nossa frente, mas de encontrar a respiração enquanto encontramos a força. São uma chance de retomar o nosso poder.”
Segundo Kosberg, aprender a prestar atenção nos sinais do próprio corpo é uma habilidade que se desenvolve com o tempo. “Volte para a respiração”, aconselha. “Confie que sua próxima respiração vai acontecer, quer você pense nisso ou não. Quanto mais forte você conseguir tornar essa respiração, mais você encontra uma sensação corporificada de controle que vai muito além do exercício.”
Propriocepção e percepção interna do corpo
A consciência corporal se apoia em dois mecanismos principais. A propriocepção usa receptores nos músculos e nas articulações para informar a posição do corpo no espaço. Já a interocepção depende de receptores nos órgãos e nos vasos sanguíneos para indicar o que acontece dentro do corpo.
Katy Bowman, especialista em biomecânica e autora do livro “Movement Matters: Essays on Movement Science, Movement Ecology, and the Nature of Movement” (sem tradução para o Brasil), associa esse processo à ideia de fluência corporal. “Passei boa parte da minha vida, no movimento ou fora dele, tentando me ajustar para ter certeza de que sou fluente em mim mesma”, afirma Bowman. “Eu quero ser capaz de falar a língua que o meu corpo está falando.”
Menos otimização, mais presença
O retorno oferecido pela tecnologia durante o treino costuma ser binário e voltado à otimização constante. Esse foco permanente no que precisa melhorar dificulta acolher o próprio corpo com mais leveza, sem a pressão de um monitor de frequência cardíaca ou de uma playlist acelerada.
Barbara Powell, ultramaratonista e coach de performance holística, autora do livro “Finding Leadville: My Story to a Hallowed 100 Mile Finish Line” (também sem tradução para o Brasil), afirma que a prática beneficia até atletas de alto rendimento. “Quando nos damos a oportunidade de sentir como é estar no nosso corpo e confiamos nos dados que o nosso corpo está nos dando, isso pode ajudar a moldar essa relação em termos de progresso saudável, de sermos capazes de saber quando podemos nos esforçar um pouco mais ou recuar”, diz Powell.
Quando o ambiente vira sobrecarga sensorial
Gerenciar sensações como temperatura corporal, tensão muscular, postura e frequência cardíaca faz parte de qualquer treino. Quando um ou mais desses estímulos se tornam excessivos, o corpo pode entrar em sobrecarga sensorial, resposta fisiológica descrita por Powell.
Os sinais mais comuns aparecem de quatro formas.
- Estresse, ansiedade ou irritabilidade.
- Dificuldade de concentração e sensação de confusão.
- Tontura e tremores.
- Suor e aperto no peito sem relação com o esforço físico.
Luz, som e cor estão entre os gatilhos mais comuns da sobrecarga sensorial durante o treino. Pequenos ajustes no ambiente ajudam a reduzir esse impacto.
- Cobrir a tela do aparelho de cardio com uma toalha.
- Usar protetor auricular para suavizar o ruído do ambiente.
- Colocar o celular no modo avião ou deixá-lo no vestiário.
Pequenas mudanças no ambiente de treino, somadas à ausência temporária da tecnologia, recolocam o corpo no centro da experiência esportiva.
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