Novo teste de urina detecta 92% dos cânceres de bexiga
Estudo com 964 pacientes mostra que teste genético de urina identificou todos os cânceres mais graves e pode reduzir exames invasivos.

Um novo teste de urina identificou 71 de 77 casos de câncer de bexiga em estudo com 964 pacientes do NHS. O exame GALEAS Bladder também identificou todos os 17 casos mais graves da doença.
Pesquisadores da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, conduziram o estudo em parceria com a empresa Nonacus, do Reino Unido, entre outubro de 2024 e junho de 2025. A revista European Urology Oncology publicou os resultados, que reúnem 964 pacientes encaminhados para investigação urgente de hematúria (a presença de sangue na urina) em sete departamentos de urologia do NHS, o sistema de saúde britânico.
Médicos confirmaram câncer de bexiga em 77 desses pacientes (ou 8% da amostra) por meio de cistoscopia, o exame padrão que usa uma câmera para inspecionar o órgão. O GALEAS Bladder, teste que rastreia mutações genéticas em 23 genes ligados ao câncer de bexiga a partir de uma amostra de urina, identificou 71 desses 77 casos, taxa de detecção de 92,2%.
Como funciona o teste de urina
O GALEAS Bladder analisa o DNA presente na urina em busca de mutações associadas ao câncer de bexiga. A tecnologia usa sequenciamento de nova geração, método que lê trechos específicos do material genético em busca de alterações.
Os pesquisadores encontraram ao menos uma mutação ligada à doença em 142 das amostras analisadas, com média de dois variantes por amostra positiva. Mutações no gene TERT apareceram em 69% dos casos verdadeiros positivos, seguidas por alterações nos genes FGFR3 (37%), PIK3CA (35%), ELF3 (14%) e ERCC2 (14%).
O laboratório da Nonacus processa o exame e entrega o resultado entre cinco e dez dias úteis após receber a amostra, segundo os autores do estudo.
Desempenho varia conforme o tipo de hematúria
O teste teve desempenho diferente entre pacientes com sangue visível na urina e pacientes com hematúria não visível, identificada apenas em exames laboratoriais. Entre os 575 pacientes com sangue visível, 68 tinham câncer de bexiga, e o GALEAS Bladder identificou 62 desses casos.
Entre os 294 pacientes com hematúria não visível, sete tinham a doença, e o exame identificou todos os sete. O valor preditivo negativo geral do teste, ou seja, a probabilidade de um resultado negativo realmente indicar ausência de câncer, ficou acima de 99%.
O GALEAS Bladder identificou os 17 casos de câncer músculo-invasivo do estudo, forma mais agressiva da doença, e 35 dos 36 casos de alto grau. Os seis casos que o teste não detectou eram todos do estágio inicial Ta, e quatro deles mediam menos de 3 centímetros de diâmetro.
O que o teste pode mudar na rotina hospitalar
Uma análise de curva de decisão, método estatístico que compara estratégias clínicas, mostrou que o uso do GALEAS Bladder como triagem reduziria o número de cistoscopias urgentes sem perda de benefício clínico. Segundo os cálculos dos pesquisadores, a adoção do teste levaria a 730 cistoscopias urgentes a menos a cada 1.000 pacientes.
Richard Bryan, diretor do Centro de Pesquisa em Câncer de Bexiga da Universidade de Birmingham e coautor do estudo, afirmou que “Os resultados são muito significativos para a prática clínica. Apenas 8% dos pacientes do estudo receberam, ao final, diagnóstico de câncer de bexiga, o que evidencia o desafio enfrentado pelos serviços de hematúria do NHS, nos quais um grande número de pacientes entra na mesma via diagnóstica urgente mesmo que a maioria não tenha câncer. O GALEAS é um teste promissor e menos invasivo, que pode ser mais fácil de administrar e tornar o teste e o rastreamento do câncer de bexiga muito mais simples.”
Lee Silcock, cofundador e diretor de produtos da Nonacus e coautor do estudo, acrescentou: “Ver o GALEAS ter um desempenho tão forte em quase mil pacientes de sete departamentos de urologia do NHS é extremamente encorajador. Esta é uma evidência do mundo real, vinda dos pacientes e das vias assistenciais para as quais o teste foi desenvolvido para apoiar.”
O que o estudo demonstra e onde ainda há dúvidas
O estudo tem características que pedem cautela. A Nonacus, fabricante do GALEAS Bladder, financiou a pesquisa, e dois dos autores ajudaram a desenvolver o teste junto à empresa.
Os pesquisadores também não acompanharam sistematicamente todos os pacientes com resultado negativo para verificar se algum deles recebeu diagnóstico de câncer depois do fim do estudo. Além disso, o valor preditivo positivo do teste ficou em 50%, o que significa que metade dos resultados positivos não correspondeu a um câncer confirmado por cistoscopia.
Os próprios autores descrevem o GALEAS Bladder como uma ferramenta para orientar a decisão sobre a urgência da cistoscopia, não como substituto do exame. O teste já está em uso em unidades do NHS na Inglaterra e no País de Gales, com mais hospitais adotando o exame conforme o uso clínico se expande.
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