Você vai viver mais, mas vai viver bem?

Levantamento com 204 países mostra que ganhos em longevidade não vêm acompanhados de mais anos com saúde plena, e Singapura ilustra o padrão.

(Crédito: Bruno Aguirre)

Singapura tem a maior expectativa de vida do mundo, mas vive mais anos doente do que há décadas. Um estudo com 204 países mostra que a lacuna entre viver muito e viver bem cresce globalmente.

A pesquisa foi conduzida pelo Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), da Universidade de Washington, em parceria com a Yong Loo Lin School of Medicine, da National University of Singapore (NUS Medicine).

A equipe analisou dados de saúde de 204 países e territórios entre 1990 e 2023 e mediu o que chama de lacuna de morbidade, a diferença entre o total de anos vividos e o total de anos vividos com saúde plena. Em Singapura, essa lacuna cresceu cerca de 2,35 anos desde 1990, um aumento de 26,6%, acima da média mundial de 21,9% no mesmo período.

O estudo foi publicado na revista científica The Lancet Public Health.

O que mostra o levantamento mundial

A tendência de Singapura repete um padrão global. Entre 1990 e 2023, a expectativa de vida no mundo passou de 64,6 para 73,8 anos, enquanto a expectativa de vida saudável avançou de 55,9 para 63,1 anos, um ritmo mais lento.

Como resultado, a lacuna de morbidade mundial subiu de 8,8 para 10,7 anos, um aumento de 21,9%. Em 2023, uma pessoa passava em média 14,5% da vida doente, contra 13,6% em 1990.

“A posição de Singapura como líder global em expectativa de vida e expectativa de vida saudável é uma conquista importante em saúde pública”, disse Marie Ng, professora associada e diretora do NUS-IHME Global Burden of Disease Research Centre, na NUS Medicine, e uma das autoras do estudo, ao AsianScientist. Segundo ela, o próximo desafio do país não é apenas alongar a vida, mas reduzir o peso de doenças crônicas, incapacidade e perda funcional ao longo da vida.

Mulheres vivem mais, mas adoecem por mais tempo

Em Singapura, mulheres vivem mais que homens, porém passam mais tempo doentes. A expectativa de vida feminina chega a 87,5 anos, contra 83,1 anos entre os homens, mas as mulheres somam 12,1 anos de vida com doença ou incapacidade, ante 10,4 anos entre os homens.

O estudo chama esse padrão de paradoxo da saúde por gênero e o identifica em praticamente todos os países analisados. É como se a aposentadoria, cada vez mais longa, viesse acompanhada de mais consultas médicas do que de anos de plena disposição.

“Sistemas de saúde deveriam ser avaliados não só pelo número de mortes que evitam, mas também por permitir que as pessoas vivam mais tempo com boa saúde, mobilidade e independência”, afirmou Simon Hay, primeiro autor do estudo e diretor de estratégia de pesquisa do IHME, na Universidade de Washington.

Doenças que mais pesam nos anos de vida com saúde

Em Singapura, cinco grupos de doenças concentram a maior parte da lacuna de morbidade.

  • Distúrbios musculoesqueléticos.
  • Transtornos mentais.
  • Lesões não intencionais.
  • Doenças dos órgãos dos sentidos.
  • Doenças cardiovasculares.

Cinco fatores de risco lideram essa lista.

  • Glicemia de jejum elevada.
  • Índice de massa corporal elevado.
  • Riscos ocupacionais.
  • Pressão arterial sistólica elevada.
  • Riscos alimentares.

O que os números ainda não respondem

Os dados vêm de estimativas estatísticas construídas a partir de registros de mortalidade, censos e pesquisas domiciliares, não de diagnósticos individuais. Isso significa que os valores têm margem de incerteza e representam médias populacionais, não o destino de uma pessoa específica.

O estudo também não indica que a saúde da população piorou de forma repentina. Ele mostra que o sistema de saúde consegue adiar a morte com mais eficácia do que prevenir ou tratar condições crônicas não fatais, como dor lombar, ansiedade e perda auditiva.

Para Marie Ng, acompanhar a expectativa de vida saudável e a lacuna de morbidade ajuda formuladores de políticas públicas a identificar onde investir mais atenção e recursos. O estudo aponta prevenção, diagnóstico precoce, reabilitação e suporte contínuo como caminhos para reduzir essa diferença nas próximas décadas.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.