O que o seu smartwatch não enxerga sobre a sua noite de sono
Revisão de cinco estudos com quase 2 mil pessoas mostra que Fitbit e Apple Watch erram ao avaliar a sensação de sono ruim, principalmente em quem tem insônia.

Uma revisão sistemática publicada na revista Sleep Medicine mostra que pulseiras e relógios inteligentes falham ao captar a real qualidade do sono percebida pelo usuário. O problema se agrava em pessoas com insônia e em idosos.
O pulmonologista Narat Srivali, da Duke University, e o médico-cientista Wisit Cheungpasitporn, da Mayo Clinic, nos EUA, assinam o trabalho. A dupla analisou dados de cinco estudos anteriores, com cerca de 2.000 participantes ao todo.
O levantamento mostrou que os wearables explicam apenas entre 2,5% e 16,2% da variação na qualidade subjetiva do sono, medida hoje usada para diagnosticar insônia. Mesmo quando a pessoa sente que dormiu mal, o dispositivo no pulso pode indicar o contrário.
Fitbit erra mais em quem sofre de insônia
Em um dos estudos incluídos na revisão, um Fitbit teve concordância aceitável com medições de sono em laboratório em 82% dos casos entre pessoas com sono saudável. Entre pessoas com insônia, essa concordância caiu para 39%.
A principal falha foi não detectar com precisão os despertares noturnos. Nesse grupo, o Fitbit superestimou o tempo total de sono em cerca de meia hora e superestimou a eficiência do sono em cerca de 8%. Quatro dos cinco estudos analisados usaram dispositivos Fitbit. Apenas um avaliou o Apple Watch, o que deixa em aberto se outros modelos de rastreador se saem melhor.
Medir o corpo não é o mesmo que medir a sensação
Vários estudos já validaram os rastreadores de sono comparando seus dados com a polissonografia, exame que mede alterações fisiológicas durante o sono, incluindo o tempo em sono leve, profundo e REM. Ainda assim, uma pessoa pode apresentar duração e eficiência normais de sono na polissonografia e, mesmo assim, acordar se sentindo mal.
Por isso, a polissonografia isolada não é usada para diagnosticar insônia. O transtorno costuma ser avaliado a partir dos sintomas relatados pelo paciente e de diários de sono.
Idosos e pessoas com depressão sentem mais o problema
Os dispositivos analisados também se mostraram menos alinhados à percepção de sono de idosos e de pessoas com depressão. “Uma pessoa com depressão pode perceber o sono como ruim mesmo com parâmetros objetivamente normais, enquanto outra, com sono fragmentado, pode relatar satisfação se suas expectativas foram atendidas”, explicam Srivali e Cheungpasitporn ao ScienceAlert. A experiência subjetiva do sono está ligada ao bem-estar psicológico de um jeito que os padrões de movimento e frequência cardíaca não conseguem captar, segundo os autores.
Para quem tem depressão, o rastreador pode sinalizar quando a pessoa dorme além da conta, mas falha em identificar a maioria dos outros sintomas que a autoavaliação do sono consegue apontar.
O que fazer com os dados do relógio inteligente
Uma pesquisa realizada na Noruega com 461 pessoas que usam ou já usaram rastreador de sono encontrou poucos relatos de melhora real na qualidade do sono. Participantes com insônia mostraram ainda mais tendência a pensamentos negativos e preocupações relacionadas ao sono.
Para Srivali e Cheungpasitporn, pacientes que relatam sono ruim mesmo com dados normais no aparelho merecem avaliação clínica adicional, e não apenas tranquilização baseada no que o dispositivo mostra. Segundo os autores, quem desconfia de um distúrbio como a insônia encontra em um diário de sono uma informação mais útil para o médico do que os dados do rastreador.
Por ora, o recado para quem usa esses aparelhos é não se estressar com o resultado da tela.
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