Atletas dormem melhor com um aliado inesperado: as bactérias do intestino

Revisão com 180 atletas de seis países aponta melhora no sono com probióticos e simbióticos, mas evidências ainda pedem cautela.

(Crédito: Pexels)

Uma revisão com 180 atletas de seis países aponta melhora na qualidade do sono com o uso de probióticos e simbióticos. O efeito apareceu principalmente em períodos de treino intenso, segundo os autores do estudo.

A revista científica Journal of the International Society of Sports Nutrition aceitou o estudo para publicação. Mina Salehi Asl, da Universidade de Ciências Médicas Shahid Beheshti, no Irã, liderou a equipe responsável pela revisão.

Os pesquisadores reuniram seis ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo, com 180 participantes ao todo. Os testes ocorreram na Malásia, na Austrália, no Japão, na Espanha, no Brasil e na Polônia, entre 2019 e 2024, com jogadores de futebol e de rúgbi, corredores, bailarinas e militares.

Das doze medidas de sono analisadas, nove favoreceram quem tomou probióticos ou simbióticos, com efeito combinado que passou no teste estatístico tanto para os probióticos (p < 0,01) quanto para os simbióticos (p < 0,001).

Por que juntar seis estudos sem uma única conta estatística

Os autores optaram por uma síntese sem metanálise, método recomendado quando os estudos usam doses, populações e formas de medir o sono demais diferentes entre si para uma conta estatística única. A busca cobriu quatro bases científicas até setembro de 2025 e encontrou 223 registros. Depois de remover duplicatas e descartar artigos fora do escopo, os seis ensaios selecionados formaram a base da revisão.

Sono percebido foi o ganho mais consistente

A melhora mais consistente apareceu na qualidade do sono relatada pelos próprios participantes, medida por questionários como o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh. Em atletas de rúgbi australianos acompanhados por 17 semanas, um probiótico multiespécie coincidiu com sono melhor relatado, menos dor muscular e mais motivação para treinar. Entre jogadores de futebol malaios, o probiótico Lactobacillus casei Shirota aumentou, após quatro semanas, os sinais de ondas cerebrais ligadas a relaxamento e atenção, medidos por eletroencefalograma.

Os dois estudos com simbióticos, que combinam probióticos e fibras prebióticas, mostraram resultado parecido. Um ensaio espanhol com jogadores de futebol registrou melhora na eficiência e no tempo para pegar no sono, mas só entre os atletas, não entre os estudantes sedentários que também participaram do teste. Em militares brasileiros acompanhados por cinco semanas, apenas o grupo que tomou o simbiótico atingiu a faixa classificada como boa qualidade de sono no mesmo questionário, com menos sonolência durante o dia.

Nem todos os estudos confirmaram o efeito. Uma versão da bactéria Lactobacillus gasseri, inativada por calor, não mudou a qualidade do sono de corredores universitários japoneses medida pelo mesmo questionário, embora os participantes tenham relatado menos ansiedade e fadiga. Entre bailarinas polonesas, a melhora na qualidade do sono ficou perto do limite estatístico, com p = 0,08, mas não o ultrapassou.

Estresse, ansiedade e fadiga tiveram resultado misto

Os efeitos sobre estresse, ansiedade e fadiga variaram de estudo para estudo. No estudo japonês, o grupo com probiótico teve queda nos escores da escala de ansiedade estado-traço (STAI) e da escala hospitalar de ansiedade e depressão (HADS), ambas com p < 0,05, além de menos fadiga física e mental pela escala de fadiga de Chalder. No estudo espanhol, atletas que tomaram o simbiótico apresentaram queda no estresse percebido e na ansiedade, com aumento da dopamina.

Outros ensaios não repetiram esse padrão. As bailarinas polonesas não tiveram mudança nos escores de fadiga, ansiedade ou depressão, e os jogadores de futebol malaios não mostraram alteração na frequência cardíaca nem na resposta da pele ao estresse, medida por sensores eletrodérmicos.

Por que a evidência ainda pede cautela

O que os seis estudos demonstraram tem limites claros. A amostra total soma 180 pessoas, quatro dos seis ensaios incluíram só homens, um foi só com mulheres e um misturou os sexos, o que deixa incerta a validade dos achados para atletas mulheres.

A avaliação de risco de viés apontou algumas preocupações em cinco dos seis estudos e risco alto em um deles, principalmente pela falta de registro prévio dos desfechos de sono que seriam medidos. As intervenções também duraram pouco, de 4 a 17 semanas, e a maioria dos estudos mediu o sono só por questionário subjetivo. Apenas um ensaio usou acelerômetro, e nenhum utilizou polissonografia, o exame considerado padrão-ouro para avaliar o sono de forma objetiva.

Os próprios autores tratam probióticos e simbióticos como um complemento, não substituto, de hábitos já validados para dormir melhor, como manter horário fixo e reduzir estímulos à noite. A recomendação vale principalmente para períodos previsíveis de sobrecarga, como fases de treino intenso, viagens e calendários de competição cheios.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.