Quais são os dois fatores que explicam por que buscamos tantos amigos?

Estudo com 5.707 pessoas em cinco estudos e três países identificou dois fatores que explicam por que algumas pessoas buscam amizades sem parar.

(Crédito: Unsplash)

Um estudo com mais de 5 mil pessoas identificou um traço psicológico ligado à busca constante por amizades. A pesquisa reuniu cinco estudos em quatro países.

A pesquisadora Jessica D. Ayers, da Boise State University, nos EUA, liderou o estudo. A revista Evolution and Human Behavior publicou a pesquisa.

A equipe criou e validou a “Escala de Orientação para Fazer Amizades”, ferramenta que mede um traço estável relacionado ao desejo de maximizar o número de amizades. A análise fatorial dividiu o traço em dois componentes. O primeiro é a preferência por uma rede ampla de amizades. O segundo é o desejo de intimidade com muitos amigos ao mesmo tempo.

Como funciona a escala de amizades

A equipe aplicou a escala em amostras que somaram 5.707 pessoas, entre estudantes universitários e adultos recrutados online. Os itens perguntam, por exemplo, se a pessoa gosta de fazer amizades casuais com muitas pessoas diferentes. Cada resposta contribui para os dois fatores identificados na análise.

A confiabilidade da escala se manteve estável ao longo de cinco a oito semanas, com correlação entre 0,70 e 0,77 nas duas repetições do teste. O resultado indica que orientação para fazer amizades funciona como um traço duradouro, e não como um estado emocional passageiro. A equipe comparou o novo construto à orientação sociossexual, escala usada para medir preferência por parceiros de curto ou longo prazo.

Diferente da orientação sociossexual, a escala de amizades não revelou uma troca direta entre quantidade e qualidade. Pessoas com maior preferência por redes amplas relataram, ao mesmo tempo, mais intimidade e mais comprometimento com os amigos que já têm. O achado sugere que buscar novas amizades não significa abrir mão da proximidade com as amizades atuais.

Desejo de intimidade prevê comportamento de busca por amigos

Em um estudo com 457 universitários, o desejo de intimidade com muitos amigos previu maior interesse em conhecer colegas de pesquisa. Participantes com pontuação mais alta nesse fator tiveram 54% mais chances de compartilhar o próprio e-mail e 71% mais chances de escrever uma mensagem para outros participantes. O efeito se manteve após o controle estatístico para extroversão, solidão, número de amigos e outros motivos sociais.

A preferência por uma rede ampla de amizades, isoladamente, não previu esse mesmo comportamento de busca ativa. Segundo a equipe, o desejo de proximidade com muitos amigos funciona como motor mais direto da ação de procurar gente nova. A preferência por redes amplas aparece mais associada à quantidade de amigos que a pessoa já tem.

Escala testada no Egito, nas Filipinas e no Brasil

Para verificar se o traço se aplica fora dos Estados Unidos, a equipe recrutou 673 adultos no Brasil, no Egito e nas Filipinas, países escolhidos por apresentarem diferentes níveis de mobilidade relacional. Os pesquisadores replicaram a estrutura de dois fatores nos três países. A escala atingiu apenas invariância fraca entre os países, o que impede comparar diretamente as médias entre eles.

Nesses três países, orientação para fazer amizades também se associou a mais generosidade em um jogo econômico de divisão de fichas e a maior proximidade percebida com estranhos, conhecidos e amigos. O efeito de generosidade foi mais forte entre participantes que relataram menos oportunidades de conhecer pessoas novas no dia a dia. Quando essas oportunidades eram abundantes, o traço deixou de prever diferença no comportamento generoso.

O que a pesquisa ainda não responde

A equipe reconhece que a escala não captura, de forma clara, uma troca entre investir em poucos amigos próximos ou em muitos amigos superficiais. Não há dados que acompanhem as mesmas pessoas ao longo dos anos, o que impede saber se a orientação para fazer amizades muda com a idade. Os pesquisadores apontam esses dois pontos como direções para estudos futuros.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.