Robôs movidos a energia solar estão capturando plástico antes que ele chegue aos oceanos
Organização neerlandesa expande robôs de limpeza para rios de 30 cidades e mira 90% do plástico oceânico até 2040, mas cientistas cobram foco na prevenção.

A organização não governamental neerlandesa The Ocean Cleanup planeja remover 90% de todo o plástico flutuante do oceano até 2040. Para isso, opera robôs autônomos batizados de interceptores em rios de cidades como Los Angeles, Mumbai e Kuala Lumpur.
A The Ocean Cleanup já recebeu dezenas de milhões de dólares em financiamento de empresas como Deloitte, JP Morgan e a montadora sul-coreana Kia, além do governo da Holanda. A organização também tem forte presença digital, com sua conta no TikTok soma 2,7 milhões de seguidores, e seu vídeo mais visto ultrapassa 50 milhões de visualizações.
Em junho de 2025, após um projeto-piloto em Kingston, na Jamaica, a entidade anunciou a expansão do programa para 30 cidades da Ásia e das Américas. Segundo a organização, a iniciativa pode evitar que um terço de todo o plástico dos rios do mundo chegue ao oceano até o fim desta década.
Como funcionam os interceptores
De acordo com reportagem do Reasons to be Cheerful, antes de instalar um interceptor em um novo rio, a The Ocean Cleanup realiza um levantamento chamado “Smart River Survey” (ou “Levantamento Inteligente de Rios”). Drones aéreos, análise de imagem por inteligência artificial e réplicas de plástico rastreadas por GPS mapeiam como o lixo se desloca das ruas até o mar. Com base nesses dados, cada equipamento é ajustado às condições locais, já que o tamanho, a vazão e a composição do lixo variam de rio para rio.
No oceano, um dos modelos usados para tratar a Grande Mancha de Lixo do Pacífico, área entre o Havaí e a Califórnia três vezes maior que a França, consegue limpar um trecho do tamanho de um campo de futebol em cinco segundos, segundo a organização.
O tamanho do problema
A produção global de plástico saltou de 1,5 milhão de toneladas métricas em 1950 para 430 milhões de toneladas em 2024. Todos os dias, o equivalente a 2 mil caminhões de lixo cheios de plástico é despejado em oceanos, rios e lagos do planeta. Segundo estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o volume de resíduos plásticos deve triplicar até 2060, com cerca de metade indo para aterros e menos de um quinto sendo reciclado.
Especialistas cobram foco na prevenção
Richard Thompson, professor de biologia marinha e diretor do Marine Institute da Universidade de Plymouth, defende que reduzir a produção de plástico é mais urgente do que limpar o que já foi descartado. “Temos que focar em estratégias para fechar a torneira”, afirma. “Impedir que o plástico chegue ao ambiente simplesmente precisa ser a prioridade, de longe.”
Arturo Castillo, professor assistente de geociências da Universidade de Utrecht e ex-líder da Ocean Plastic Solutions Network no Imperial College London, segue a mesma linha. “Para cada euro que não é gasto em prevenção ao longo do ciclo de vida do plástico, a quantidade dele no ambiente também vai crescer de forma exponencial, e sempre será um múltiplo do que se poderia ter limpado com esse mesmo euro”, argumenta.
Thompson, que assinou em 2024 um relatório sobre remoção de plástico de ambientes aquáticos para a Royal Society, academia nacional de ciências do Reino Unido, reconhece que “certa quantidade” de remoção ainda é necessária para reduzir o risco à fauna, aos ecossistemas e, potencialmente, às pessoas. O plástico leva de 20 a 500 anos para se decompor, dependendo do produto, e mesmo assim apenas parcialmente, virando microplásticos.
Nem tudo deu certo
O projeto teve um começo difícil. Em setembro de 2018, a The Ocean Cleanup enviou à Grande Mancha de Lixo do Pacífico um equipamento com boia e rede que pretendia remover metade dos detritos da área em cinco anos. Poucos meses depois, o dispositivo teve que ser rebocado de volta: havia se partido ao meio.
Os modelos melhoraram desde então, mas persistem dúvidas sobre o impacto na biodiversidade. Uma pesquisa encomendada pela própria The Ocean Cleanup concluiu que suas operações na Grande Mancha de Lixo do Pacífico causam menos dano à vida marinha do que a poluição por plástico, mas o efeito não é nulo. Em dois anos e meio de atividade, 47 tartarugas marinhas entraram na maquinária e 11 morreram.
Reciclagem também tem limite
Parte do plástico recolhido é reciclada e vira produto, como o forro de porta-malas fabricado pela Kia e uma edição limitada de vinil da banda Coldplay, também parceira do projeto. Castillo, porém, questiona o que acontecerá quando a escala das operações crescer. “Se conseguíssemos tirar tudo do oceano, o que faríamos com isso? Onde isso vai parar?”, indaga. Segundo ele, a mistura de diferentes tipos de plástico limita bem mais a reciclagem real do que normalmente se pensa.
Thompson ainda defende que, além de robôs, soluções simples como mutirões de limpeza de praia continuam eficazes, baratas e fáceis de manter. Para ele, o próprio debate sobre o problema já avançou. “A situação mudou ao longo da minha carreira”, diz. “Hoje existe consenso sobre o problema, na indústria, na política e na sociedade.”
Imagine receber conteúdos como este todas as semanas, já adaptados ao seu veículo e prontos para publicação.
Quero testar o Pautas ExtrasSobre o Autor