O suplemento de NAD+ realmente retarda o envelhecimento? Entenda a evidência científica

Revisão com 113 estudos mostra que suplementos de NAD+ elevam marcadores no sangue, mas não comprovam ganhos reais de saúde ou longevidade.

(Crédito: Unsplash)

Uma revisão na revista Ageing Research Reviews avaliou 113 estudos sobre suplementos de NAD+ e não encontrou provas consistentes de benefício contra o envelhecimento. A análise reúne 33 estudos em humanos e 80 em roedores.

Cory Gallagher conduziu o trabalho na consultoria Allure Management, nos Estados Unidos, junto com Owoturo Oluwaseun Emmanuel, pesquisador independente na Nigéria. A dupla seguiu o protocolo PRISMA e varreu as bases PubMed, Embase e Cochrane CENTRAL, entre janeiro de 2010 e outubro de 2025. Do total de 113 estudos elegíveis, 33 avaliaram seres humanos, com 28 ensaios randomizados, e 80 usaram roedores.

Os compostos mais testados foram o ribosídeo de nicotinamida (NR) e o mononucleotídeo de nicotinamida (NMN), tomados por via oral. Segundo os autores, a suplementação eleva de forma consistente o NAD+ no sangue e nas células, mas os efeitos sobre função física, metabolismo e outros marcadores de saúde variam entre os estudos e, com frequência, não aparecem.

O que os exames de sangue mostram

Os estudos em humanos testaram, principalmente, cápsulas de NR ou NMN. Na maioria dos casos, os participantes tomaram o suplemento por semanas ou poucos meses.

O efeito mais consistente apareceu nos exames de sangue. Em um dos ensaios, conduzido por Conze e colaboradores, o NAD+ nas células do sangue subiu cerca de 60% em relação ao placebo depois de oito semanas de NR.

Esse tipo de resultado mostra que o composto chega à corrente sanguínea e altera a bioquímica do organismo. Não mostra, porém, se esse aumento produz algum ganho perceptível de saúde ou de longevidade.

Função física e metabolismo têm resultados divididos

Quando os pesquisadores foram além dos exames de sangue, os resultados perderam a consistência. Yoshino e colaboradores testaram NMN por dez semanas em mulheres pré-diabéticas na pós-menopausa e viram a sensibilidade à insulina no músculo subir 25% em relação ao início do estudo.

Outro ensaio, conduzido por Remie e colaboradores com NR, não encontrou diferença alguma na sensibilidade à insulina medida por clamp. O resultado contradiz o achado anterior, apesar do mesmo tipo de suplementação usado nos dois estudos.

Um teste de caminhada de seis minutos também variou. Segundo Yi e colaboradores, voluntários que tomaram 600 miligramas de NMN por dia caminharam, em média, 435 metros ao final de 60 dias, contra 290 metros no início do estudo. Já a força de preensão manual, medida em vários outros ensaios, quase sempre ficou igual entre os grupos.

Injeções intravenosas de NAD+ ainda não têm base científica

Clínicas de bem-estar oferecem infusões intravenosas de NAD+ como tratamento anti-idade. A revisão não encontrou nenhum estudo controlado que testasse essa via de aplicação para esse fim.

Apenas um ensaio, sem grupo de controle, avaliou NMN injetado na veia. Conduzido por Kimura e colaboradores, o teste durou cinco horas e mediu apenas segurança. Os pesquisadores não registraram alteração relevante nos sinais vitais nem nos exames de sangue.

Um segundo estudo, de Grant e colaboradores, mediu como o NAD+ intravenoso se comporta no plasma e na urina, mas não avaliou nenhum resultado de saúde. Ele serve apenas como contexto na revisão, não como prova de eficácia.

A limitação tem explicação biológica. O NAD+ é uma molécula grande e carregada eletricamente, o que dificulta sua passagem direta pela membrana das células. Antes de entrar na célula, enzimas no sangue quebram boa parte do NAD+ injetado em fragmentos menores, que precisam ser reconstituídos por dentro. Ou seja, a infusão provavelmente não repõe o NAD+ intracelular de forma direta. Isso contradiz a promessa feita por algumas clínicas de bem-estar.

O que a segurança dos estudos revela

Nos ensaios de curto prazo, os suplementos orais de NR e NMN não causaram problemas relevantes de segurança. Entre os 28 ensaios randomizados analisados, apenas um teve risco baixo de viés metodológico. Vinte e três tiveram algumas preocupações e quatro tiveram risco alto, segundo a ferramenta ROB2 usada pelos autores.

Os cinco estudos sem randomização tiveram risco sério de viés em todos os casos. Os autores tratam esses achados apenas como pista inicial. Eles não comprovam que a via intravenosa funciona.

Os autores concluem que os precursores orais de NAD+ funcionam melhor como recurso experimental do que como tratamento comprovado contra o envelhecimento. Eles recomendam ensaios maiores, com acompanhamento mais longo, principalmente para avaliar as infusões intravenosas antes de qualquer promessa clínica.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.