Escola alemã usa rotina simples para garantir que nenhuma criança saia sem saber ler

Grundschule Kirchdorf, em Hamburgo, lê em voz alta todos os dias com a turma inteira e virou modelo para escolas de 14 estados alemães.

(Crédito: Unsplash)

Uma escola pública de Hamburgo, na Alemanha, dedica 20 minutos por dia à leitura em voz alta com toda a turma. A Grundschule Kirchdorf adotou o método em 2011 para reduzir o número de alunos que terminam a escola sem leitura fluente.

A escola fica no bairro de Wilhelmsburg e atende famílias com índice socioeconômico baixo, nível dois em uma escala de um a seis usada pela cidade de Hamburgo para distribuir recursos entre escolas. Vale destacar que muitas crianças falam outro idioma além do alemão em casa.

O diretor Christian Gronwald desenvolveu a leitura diária, chamada de “Leseband” na Alemanha, com o professor de Didática de Literatura e Mídia Steffen Gailberger a partir de 2014. Uma pesquisa do consórcio alemão BiSS acompanhou, ao longo de vários anos, turmas com e sem a leitura diária, e os alunos que participaram leram com mais fluência e entenderam melhor os textos ao final do período.

Como funciona a leitura diária

A leitura acontece todos os dias às 8h50, no segundo horário de aula. Os professores da escola escolheram esse horário porque, na primeira aula, as crianças ainda estão agitadas, e depois do almoço o tempo fica curto demais.

Toda a turma lê o mesmo livro em voz alta, ao mesmo tempo. A professora Milena Minic, responsável por escolher os livros usados na leitura diária, afirma que o método funciona porque os professores conseguem ouvir se os alunos realmente acompanham o texto.

Cada palavra precisa ser lida pelo menos quatro vezes para ficar registrada na memória da criança, segundo o método aplicado pela escola. Depois disso, o aluno reconhece a palavra com mais fluência em outros textos. Minic afirma ao Krautreporter que até os leitores mais avançados ganham com a repetição. “Mesmo correndo devagar, eu ainda ganho resistência”, disse.

O que mostra a pesquisa

O problema que a escola tentou resolver tem raízes antigas. Em 2001, o PISA revelou que uma em cada cinco crianças do quarto ano na Alemanha não atingia o nível mínimo de leitura. Em 2021, a proporção subiu para uma em cada quatro.

A pesquisa do consórcio BiSS mostrou que o ganho em leitura também refletiu em outras disciplinas. Os alunos passaram a entender melhor os enunciados de matemática e os textos de história. O efeito foi mais forte entre crianças de famílias que não falam alemão em casa.

Quatro anos depois de criar o método, a Grundschule Kirchdorf venceu o Prêmio Escolar de Hamburgo. Em 2017, a escola ficou em segundo lugar no Prêmio Alemão de Leitura. Hoje, cerca de 170 escolas de Hamburgo usam o método, sendo 130 escolas primárias e 40 escolas de ensino fundamental e médio, e ao menos 14 estados alemães adotaram a leitura diária ou programas parecidos.

Limites do método, segundo pesquisadora

Gailberger diz que o programa não criou um método novo de ensino. “Não reinventamos a roda da didática de leitura. Trouxemos sistema e obrigatoriedade para o incentivo à leitura nas escolas”, afirma.

A pesquisadora em didática de alemão Juliane Dube, da Universidade de Gießen, avalia que a leitura diária sozinha não resolve o problema. Ela recomenda testar a leitura dos alunos a cada oito ou dez semanas, enquanto a Grundschule Kirchdorf faz o teste apenas uma vez por ano.

Segundo a pesquisa de Dube, a fluência de leitura das crianças melhorou com o método, mas o gosto pela leitura não aumentou na mesma proporção. A escola aposta em fazer as turmas lerem livros inteiros, em vez de textos soltos, para tentar despertar esse interesse com o tempo.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.