Jardim feito de entulho pode ser mais bonito que um gramado

No Horniman Museum, em Londres, 25 toneladas de concreto reaproveitado viraram um jardim de plantas resistentes à seca e cheio de vida selvagem.

(Crédito: Errol Reuben Fernandes)

O Horniman Museum and Gardens, em Londres, transformou 25 toneladas de concreto descartado em um jardim de plantas resistentes à seca. A iniciativa mostra como resíduo de obra pode virar solução de paisagismo sustentável.

O espaço fica na entrada do museu, perto de uma via de tráfego intenso, e é descrito pelo chefe de horticultura Errol Reuben Fernandes como a “vitrine” da instituição.

Antes da reforma, o local tinha vegetação de pouca variedade, incluindo agapanto de um lado, florido por poucas semanas do ano, e bambu e fórmio do outro, sem flor e sem mudança visível entre as estações. O concreto usado veio da reforma de um caminho interno do próprio museu.

Por que plantar em entulho em vez de terra?

A resposta está na escolha das espécies. De acordo com o Positive News, a equipe usou xerófitas, plantas adaptadas a viver com pouca água, vindas do Mediterrâneo, do Peru, do Chile, da Bolívia e do México. Fernandes explica que essas regiões costumam ter verões muito quentes e invernos muito frios, condição que torna as plantas resistentes a extremos.

O entulho funciona como substrato drenante, o oposto do solo compactado que retém água e sufoca esse tipo de planta. Por isso, restos de obra como concreto, cascalho e areia substituem a terra tradicional sem prejuízo para o crescimento.

A ideia já tem décadas de história

Fernandes não está sozinho nessa aposta. Em Malmö, na Suécia, o paisagista Peter Korn desenvolveu o plantio em base de areia.

Em Essex, na Inglaterra, John Little ficou conhecido como referência em jardinagem sobre terrenos industriais abandonados.

Nos anos 1990, as jardineiras inglesas Beth Chatto e Derry Watkins já haviam testado jardins de cascalho, muito antes de a técnica virar tendência.

O que isso muda para quem constrói casas novas

Nathan Apperley, jardineiro-chefe da Yeo Valley Organic, defende que a prática pode mudar como novas casas são entregues. Segundo ele, mais de 40 mil residências foram construídas na Inglaterra no último ano, e os jardins costumam decepcionar os moradores.

“Os construtores jogam terra vegetal por cima e plantam grama de cerca a cerca, e isso costuma falhar”, afirma Apperley. O problema é o subsolo compactado e mal drenado que fica escondido sob essa camada fina de terra.

Rubble gardens revertem essa lógica e ainda atraem abelhas, besouros e aranhas. Apperley resume o resultado como “um ecossistema pequeno e eficiente” formado por esses predadores e suas presas.

De pilha de escombro a refúgio silvestre

A permacultora Elizabeth Waddington, da Escócia, viveu esse efeito sem planejar. Durante a reforma de um antigo celeiro de pedra com o marido, sobrou um monte de entulho na frente da propriedade. Sem nenhuma intervenção, o monte virou habitat de flores silvestres nativas, com menos ervas daninhas do que um canteiro adubado costuma ter.

Convencer o vizinho faz parte do processo

Fernandes recomenda explicar a proposta a quem mora ao lado antes de começar. Ele lembra uma visitante de 92 anos que perguntou quando o museu removeria “aquele monte de concreto”, sem saber que a pilha era proposital. Para ele, essa estranheza inicial abre espaço para conversa e ajuda o público a entender o valor do projeto.

Imagine receber conteúdos como este todas as semanas, já adaptados ao seu veículo e prontos para publicação.

Quero testar o Pautas Extras

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.