Japão quase criou a inteligência artificial três décadas antes do ChatGPT

Nos anos 1980, o Japão investiu para criar inteligência artificial antes do resto do mundo, mas o resultado foi diferente do planejado.

(Crédito: Unsplash)

O governo do Japão lançou, em 1981, o projeto Fifth Generation Computer Systems (FGCS) para criar computadores que conversassem em linguagem natural. A meta era chegar à inteligência artificial antes de meados dos anos 1990.

De acordo com reportagem do Tokyo Weekender, o Ministério do Comércio Internacional e Indústria do Japão anunciou o programa ao lado de pesquisadores do Laboratório Eletrotécnico do país. A intenção era romper o domínio da IBM no mercado de computadores e colocar o Japão à frente de uma arquitetura de máquina inteiramente nova.

O plano previa dez anos de trabalho. O investimento, porém, ficou bem abaixo da ambição do projeto. Entre 1982 e 1994, o governo japonês gastou cerca de 57 bilhões de ienes na iniciativa, o equivalente a R$ 1,6 bilhão em valores atuais. Essa cifra nunca superou 1% do gasto anual em pesquisa e desenvolvimento da indústria eletrônica japonesa, e ficou atrás até do valor que a própria IBM investia em pesquisa.

O que o Japão queria construir

O FGCS não seria apenas um computador mais rápido. Ele deveria inferir sentido em instruções incompletas, aprender a partir de uma base de conhecimento própria e permitir que humanos dessem comandos em linguagem natural, sem depender de programação exata como nas máquinas da época.

Essa arquitetura não se parece com a dos modelos de linguagem atuais, caso do ChatGPT. O sistema japonês deveria raciocinar sobre uma base de conhecimento fixa, sem gerar texto a partir de padrões aprendidos em treinamento. Para alcançar isso, o Japão precisava construir uma arquitetura de computador totalmente nova, sem herdar nada da tecnologia que a IBM já dominava no mercado global.

Por que o projeto não decolou

Cumprir essa meta com uma arquitetura inédita, sem apoio da estrutura que já dominava o setor, tornou o trabalho mais difícil e afetou a atração de talentos para o Institute for New Generation Computer Technology, principal centro de pesquisa do FGCS.

A forma de contratar também pesou contra o projeto. Recém-doutores eram colocados primeiro em empresas parceiras privadas e, cerca de seis meses depois, encaminhados ao instituto de pesquisa. O modelo respeitava a cultura japonesa de emprego vitalício, mas atrasou justamente os pesquisadores mais jovens, que poderiam ter dado a maior contribuição técnica ao FGCS.

Depois de mais de uma década de trabalho, o Japão não entregou a inteligência artificial prometida.

O que sobrou da tentativa japonesa de criar inteligência artificial

O fracasso na meta original não apagou os resultados técnicos do FGCS. O projeto gerou 382 patentes, 2.371 relatórios técnicos e memorandos, e 100 pacotes de software liberados gratuitamente na internet a partir de 1992. A iniciativa também aproximou institutos de pesquisa de diferentes países.

O avanço mais citado do FGCS foi no processamento paralelo, técnica que divide uma tarefa entre vários processadores ao mesmo tempo, como distribuir partes de um trabalho entre vários funcionários em vez de deixar tudo para uma única pessoa. Uma comissão avaliou que essa técnica passou a resolver cálculos complexos milhares de vezes mais rápido depois da pesquisa do FGCS.

O processamento paralelo hoje sustenta boa parte da tecnologia usada no dia a dia, de mecanismos de busca a serviços de streaming, smartphones, placas gráficas e os próprios sistemas de inteligência artificial atuais. O projeto também formou uma geração de cientistas da computação em programação lógica e computação paralela, área que passou a dominar o cenário tecnológico mundial nas décadas seguintes.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.