O que muda no corpo quando o jantar é servido perto da hora de dormir

Estudo com 13 mulheres comparou jantar perto e longe da hora de dormir e mediu os efeitos no sono e na glicose por quatro dias seguidos.

(Crédito: Pexels)

Jantar 1 hora antes de dormir reduziu o tempo de sono e aumentou o número de vezes que mulheres jovens acordaram durante a noite, aponta estudo japonês. A resposta da glicose ao jantar tardio também mudou nos primeiros dias.

Cientistas da Tokyo University of Technology, do National Center of Neurology and Psychiatry, da Hokuriku University e da Keio University School of Medicine, no Japão, conduziram a pesquisa e a publicaram no Journal of Physiological Anthropology.

Os pesquisadores recrutaram 14 mulheres saudáveis, com média de 21,4 anos, e acompanharam 13 delas até o fim do estudo, após excluir uma participante por dificuldade excessiva para pegar no sono. Cada voluntária passou por um experimento cruzado em que jantou tanto 1 hora quanto 5 horas antes do horário habitual de dormir, em períodos separados por pelo menos uma semana.

A equipe padronizou a quantidade e a composição de nutrientes das refeições, com cerca de 700 quilocalorias cada uma, registrou o sono por eletroencefalografia no início e no fim de cada condição e monitorou a glicose de forma contínua ao longo de todo o experimento.

Sono ficou mais curto e mais interrompido com jantar tardio

No quarto dia de intervenção, as voluntárias dormiram em média 415 minutos na condição de jantar 1 hora antes de dormir, contra 441 minutos na condição de 5 horas antes, segundo os pesquisadores. A eficiência do sono também caiu, de 92,9% para 91,5%.

O tempo acordada após pegar no sono quase dobrou no jantar tardio, passando de cerca de 16 minutos para 29 minutos. O número de trocas de estágio do sono ao longo da noite e o índice de despertares também aumentaram nessa condição.

Apesar disso, o tempo que as participantes levaram para pegar no sono não mudou entre as duas condições. A sonolência relatada por elas cresceu de forma parecida nas duas noites, sem diferença perceptível entre os grupos.

Glicose após o jantar variou nos primeiros dias, depois se estabilizou

Nos primeiros dias do experimento, o jantar consumido 1 hora antes de dormir gerou picos maiores de glicose no sangue. Um sensor de monitoramento contínuo no braço das voluntárias captou esses picos nas três horas seguintes à refeição. No primeiro dia dessa condição, a área sob a curva da glicose pós-jantar somou 7.050 miligramas por decilitro multiplicados por minuto, e caiu para 5.101 no quarto dia.

Na condição de jantar 5 horas antes de dormir, essa queda ao longo dos dias não apareceu com a mesma intensidade. Para a equipe, o resultado sugere que o corpo pode se adaptar a um horário de jantar mais tardio em poucos dias, embora o estudo não confirme os mecanismos por trás dessa adaptação.

No quinto dia, as voluntárias fizeram um teste padrão de tolerância à glicose em jejum, após a última noite de cada condição, e o resultado não mostrou diferença estatística entre os dois horários de jantar. O índice HOMA-IR, que mede resistência à insulina, apontou apenas uma tendência de valores mais altos entre quem jantou mais perto da hora de dormir.

O que o estudo já mostra, e o que ainda falta confirmar

O experimento aponta uma associação entre jantar tardio e sono mais fragmentado, não uma prova definitiva de causa e efeito, e usou um grupo pequeno e específico de participantes.

Os pesquisadores recrutaram as 13 mulheres da amostra final, de 20 a 25 anos e peso considerado magro, em uma universidade de Tóquio, e listam eles mesmos os limites do trabalho.

  • A amostra é pequena e reúne só mulheres jovens e magras, sem homens.
  • Os pesquisadores não controlaram o ciclo menstrual das participantes, embora ele possa influenciar o sono.
  • Cada condição de jantar durou apenas quatro dias.
  • A equipe padronizou apenas o horário do café da manhã e do almoço, não o conteúdo dessas refeições.

Os autores afirmam que ainda faltam estudos mais longos, com grupos maiores e mais diversos, para confirmar se o efeito se mantém ao longo do tempo e se de fato eleva o risco de doenças metabólicas.

No Japão, o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar já recomenda evitar jantar nas duas horas anteriores ao sono em seu programa oficial de checagem de saúde, mas os próprios pesquisadores dizem que a base científica dessa orientação ainda não está totalmente estabelecida.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.