Guaxinins-pigmeus fazem bolas de papel para brincar

Duas fêmeas jovens de uma espécie rara aprenderam juntas a transformar lixo em bola de papel para brincar

Crédito: Wild

Duas fêmeas jovens de guaxinim-pigmeu, espécie criticamente ameaçada de Cozumel, no México, aprenderam a fabricar bolas de papel para brincar. O comportamento, inédito no gênero Procyon, foi descrito em estudo publicado na Wild.

As irmãs, identificadas na pesquisa como Juvenil 1 e Juvenil 2, foram observadas em um clube de praia na costa sudoeste da ilha de Cozumel, entre 13 e 29 de janeiro de 2026, ao longo de 64 horas de campo. O estudo foi conduzido por Nessie O’Neil e Michelle Szydlowski, da Miami University, nos EUA, e por Noel Anselmo Rivas-Camo, da Subdirección de Ecología da prefeitura de Cozumel, no México.

As fêmeas retiravam guardanapos, recibos e embalagens de uma lixeira e levavam o material até uma tigela de água deixada por funcionários do local. Elas mergulhavam o papel, depois o pressionavam, giravam e enrolavam na areia até formar uma bola compacta. Os pesquisadores documentaram 14 sequências completas. Entre elas, oito terminaram em bolas prontas e seis ficaram incompletas, taxa de sucesso de 57,1%.

Uma irmã teve mais sucesso do que a outra

Juvenil 1 acertou seis das oito tentativas, taxa de 75%. Juvenil 2 completou apenas duas de seis tentativas, 33,3%. Suas quatro primeiras tentativas, em 19 e 22 de janeiro, fracassaram, mas ela conseguiu fazer duas bolas sozinha em 29 de janeiro, usando uma embalagem de comida e um recibo.

A mãe das duas fêmeas também tentou fabricar uma bola, mas desistiu depois de não conseguir retirar uma toalha de papel da tigela de água. Segundo os autores, a fêmea adulta havia bebido cerca de 30 mililitros de uma margarita deixada por turistas pouco antes, o que pode ter reduzido sua destreza.

A sequência sugere aprendizado entre irmãs

Em 19 de janeiro, os pesquisadores viram Juvenil 2 se aproximar enquanto a irmã manipulava o papel. Ela tentou copiar o gesto sem sucesso, e Juvenil 1 chegou a tomar o material das patas dela para terminar a bola, enquanto a mais nova girava nas próprias patas a bola já pronta.

Cerca de cinco dias depois, sem a presença de Juvenil 1, removida do local para cuidados de reabilitação, Juvenil 2 repetiu toda a sequência sozinha, com uma embalagem de hambúrguer. Para os autores, o padrão indica transmissão social do comportamento entre as duas, e não apenas coincidência individual.

As bolas de papel viraram brinquedo compartilhado

Depois de prontas, as bolas eram usadas em brincadeiras. As fêmeas batiam nelas com as patas dianteiras, perseguiam o objeto, giravam sentadas e disputavam a posse rosnando uma para a outra. Nenhuma delas comeu o papel. Em um único caso, uma delas mordeu a bola, comportamento que os autores classificam como exploratório.

Os pesquisadores registraram seis episódios de brincadeira. Em um deles, a mãe se juntou às filhas. Em outro, ela brincou sozinha com uma bola feita pela filha. Por fim, em um terceiro, dois filhotes de quati-pigmeu-de-cozumel (Nasua narica nelsoni) se juntaram às irmãs.

Achado é raro em espécie à beira da extinção

O guaxinim-pigmeu (Procyon pygmaeus) existe apenas na ilha de Cozumel e é classificado como criticamente ameaçado pela União Internacional para Conservação da Natureza. Seu habitat vem sendo degradado pela expansão de estradas, hotéis e marinas ligados ao turismo na região.

Em um segundo local de observação, a cerca de 30 quilômetros de distância, com enotos jovens, papel disponível, água doce e alta habituação a humanos, nenhum episódio de fabricação de bolas foi registrado. Os próprios autores classificam o achado como evidência preliminar. Como apenas duas fêmeas foram observadas, o estudo não é suficiente para provar uma tradição cultural estável entre os enotos-pigmeus.

A fragilidade da população reforça a importância do registro. Juvenil 1, autora da primeira sequência completa, morreu depois em um centro de reabilitação, provavelmente por desnutrição e exposição a substâncias tóxicas de origem humana. Duas outras crias da mesma população também desapareceram nas semanas anteriores às observações, pelo motivo aparente.

Os autores alertam que comportamentos aprendidos socialmente podem se perder antes mesmo de serem documentados, e que nem todo hábito transmitido entre indivíduos é necessariamente benéfico para a sobrevivência da espécie.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.