Voluntários na Índia protegem elefantes e reduzem conflito com agricultores
Grupo batizado de Gajmitra reúne moradores que revezam noites para guiar elefantes com segurança e reduzir prejuízo às plantações.

Mais de 150 voluntários patrulham à noite os corredores de elefantes na floresta de Katarniaghat, na Índia. O grupo Gajmitra reduziu os danos às lavouras em quase 70% no último ano.
A iniciativa chamada Gajmitra começou em 2021, criada pela Nature Environment & Wildlife Society (NEWS) e depois reforçada com apoio do Departamento Florestal de Uttar Pradesh.
Voluntários treinados atuam em vilarejos como Rampurwa, Matehi, Amba, Bishunapur, Bhawanipur e Bardia, dentro da Terai Arc Landscape, paisagem de conservação que liga a Reserva de Tigres de Dudhwa, na Índia, ao Parque Nacional de Bardia, no Nepal. Segundo o The Better India, o trabalho da rede reduziu os danos às plantações em quase 70% no último ano.
Elefantes seguem rotas que atravessam a fronteira com o Nepal
Os elefantes usam há gerações as mesmas rotas de migração entre a Índia e o Nepal. A matriarca, fêmea mais velha do grupo, guia a família por centenas de quilômetros até fontes de água e alimento, orientada por um hipocampo grande, região do cérebro ligada à memória espacial.
Essas rotas existiam antes das vilas, estradas e canaviais da região. Com a expansão do cultivo perto das bordas da floresta, os caminhos dos elefantes passaram a cruzar cada vez mais os assentamentos humanos.
A rotina começa depois do jantar
Os Gajmitras são agricultores durante o dia e patrulheiros à noite. “Só depois de terminar nosso trabalho, jantar e garantir que a família está bem é que nos preparamos para o plantão dos elefantes”, disse Suresh Kumar, voluntário do grupo.
Por volta das 23h, equipes de cinco pessoas se espalham pelos vilarejos. Duas sobem em torres de observação, enquanto outras rondam campos onde pegadas recentes foram registradas na véspera, munidas de coletes refletivos, lanternas, apitos, sirenes portáteis e megafones.
“Se um time avista os elefantes, todos são avisados na hora. O Departamento Florestal também participa, e juntos garantimos a segurança dos moradores e damos espaço para os elefantes voltarem para a floresta”, afirmou Kumar.
Mulheres cuidam da preparação dentro das vilas
Vineeta Devi foi uma das primeiras mulheres a integrar o grupo, em 2021, quando apenas quatro voluntárias participavam. Hoje as mulheres ainda são minoria entre os quase 160 Gajmitras treinados.
Como as rondas noturnas na floresta são pouco comuns para mulheres na região, o papel de Devi é avisar as famílias. “Assim que a informação chega, vamos de casa em casa dizendo para as famílias ficarem dentro de casa. Impedir que multidões se formem é uma das partes mais importantes do trabalho, porque um elefante calmo pode ficar estressado se for cercado por pessoas”, contou.
Rebanho ou macho solitário? A primeira pergunta da noite
Para o voluntário veterano Jaynarayan, a resposta muda conforme o tipo de elefante encontrado. “Eles viajam sozinhos, cobrem grandes distâncias e são menos previsíveis. Só fazer barulho ou usar luz nem sempre é suficiente. Precisamos ter muito mais cuidado”, disse sobre os machos solitários.
Segundo ele, o maior desafio costuma vir das próprias pessoas, que se aproximam para fotografar ou filmar os animais.
Avistamentos deixaram de ser sazonais
O voluntário Ashok Kumar observa a região há anos e nota que os avistamentos, antes concentrados em certas épocas, agora ocorrem o ano todo. Ele atribui a mudança à fragmentação das florestas, que empurra os elefantes para mais perto das áreas cultivadas em busca de alimento.
Existe compensação financeira para quem perde lavoura, mas Kumar considera que o dinheiro não resolve tudo. “Não consegue remover o medo ou a incerteza. A solução de longo prazo é entender por que os elefantes usam essas paisagens e reduzir as situações em que o conflito começa”, afirmou.
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