O que a fumaça de incêndios florestais faz com o seu coração
Estudo liga exposição à fumaça de incêndios a mais hospitalizações cardíacas

Um estudo da Universidade Yale, nos EUA, encontrou uma associação entre a exposição repetida à fumaça de incêndios florestais e um risco maior de internação por doença cardiovascular em idosos nos Estados Unidos. A pesquisa usou dados de mais de 65 milhões de beneficiários do Medicare.
A equipe cruzou registros de todos os norte-americanos com 65 anos ou mais no território continental dos Estados Unidos, entre 2017 e 2022, período este que envolveu cerca de 65 milhões de pessoas. O estudo foi publicado no Journal of the American College of Cardiology.
Como o estudo mediu a exposição à fumaça
Os pesquisadores estimaram os níveis de partículas finas ligadas à fumaça (chamadas de PM2.5) em uma grade de 10 por 10 quilômetros que cobre todo o território dos Estados Unidos. O cálculo combinou imagens de satélite, rastreamento de plumas de fumaça e monitores de solo.
Cada pessoa recebeu um nível de exposição conforme o CEP onde morava. A equipe usou a média acumulada de exposição dos três anos anteriores à internação, deixando de fora o ano da própria internação. Essa escolha teve um motivo específico. Kai Chen, professor associado de epidemiologia em ciências ambientais da saúde na Escola de Saúde Pública de Yale e autor correspondente do estudo, explicou que o objetivo era captar o acúmulo crônico de exposição, e não um pico pontual de fumaça.
Os pesquisadores também acompanharam internações por insuficiência cardíaca, arritmia, acidente vascular cerebral e outras doenças cerebrovasculares, além de doença isquêmica do coração. O modelo estatístico levou em conta outros fatores conhecidos por afetar o coração, como poluição do ar de outras origens, temperatura, umidade e condições socioeconômicas da comunidade. A equipe também testou se o risco variava por idade, sexo, raça e nível socioeconômico.
O que o estudo realmente encontrou
A exposição prolongada à fumaça de incêndio apareceu associada a um risco maior de internação cardiovascular em geral. A insuficiência cardíaca teve a associação mais forte, pois o risco ficou mais de 20% mais alto nos níveis mais altos de exposição. Para o acidente vascular cerebral, principalmente o do tipo isquêmico, o risco também cresceu de forma constante conforme a exposição aumentava.
Dois pontos chamaram a atenção da equipe. O primeiro é que o risco apareceu elevado mesmo em níveis de exposição relativamente modestos, o que sugere que comunidades pouco atingidas pela fumaça, e não só as mais próximas dos incêndios, também podem correr risco cardiovascular real. O segundo é que o efeito não se distribuiu de forma igual entre a população. Isso porque pessoas de nível socioeconômico mais baixo apareceram como potencialmente mais vulneráveis, o que aponta para um problema de equidade nessa exposição.
“A fumaça dos incêndios florestais deve ser tratada como algo mais do que um incômodo respiratório temporário”, disse Harlan Krumholz, professor de medicina da Escola de Medicina de Yale e coautor do estudo. Ele defendeu que médicos ajudem pacientes de maior risco a se preparar para eventos de fumaça e que gestores de saúde pública ampliem alertas, espaços de ar limpo e acesso a filtragem eficiente, principalmente para comunidades com menos recursos.
O que a associação não prova
O estudo é observacional e trabalha com associação estatística, não com um experimento controlado. Ele não cobre pessoas com menos de 65 anos, já que a base de dados vem do Medicare, e não isola cada mecanismo biológico por trás do aumento do risco.
Os próprios autores reforçam que pesquisas anteriores sobre fumaça de incêndio se concentraram nos efeitos respiratórios de curto prazo, e que o retrato cardiovascular de longo prazo, sobretudo em subtipos como doença isquêmica do coração e arritmia, ainda era pouco explorado antes deste trabalho.
O que fazer para proteger o coração
Yuan Lu, professora associada de medicina na Escola de Medicina de Yale e coautora sênior do estudo, resumiu a recomendação é que “as mesmas medidas que protegem seus pulmões também ajudam a proteger seu coração.”
. As medidas incluem:
- Verificar a qualidade do ar local antes de sair de casa.
- Ficar em ambientes fechados quando o nível de poluição estiver alto.
- Usar purificador de ar ou manter um cômodo com filtragem, os chamados espaços de ar limpo.
- Evitar atividade física intensa ao ar livre em dias de fumaça.
- Usar máscara N95 ou KN95 bem ajustada ao sair de casa nesses períodos.
Para Chen, o alcance do problema vai além do episódio agudo de fumaça. Segundo ele, o efeito cardiovascular da fumaça de incêndio florestal ultrapassa a linha de frente do fogo e continua muito depois de o céu voltar a ficar limpo.
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