Circunferência da cintura é mais confiável que o IMC para prever risco cardíaco?
Estudo com mais de 260 mil pessoas mostra que medir a cintura revela riscos cardiovasculares que o IMC sozinho não capta.

Um estudo mostra que medir a cintura prevê melhor o risco cardíaco do que o IMC isolado. A pesquisa acompanhou mais de 260 mil pessoas por 20 anos.
A pesquisa é assinada pelo Cross-Cohort Collaboration, consórcio de 15 estudos de coorte ligados ao National Institutes of Health (NIH) e ao National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI), dos Estados Unidos.
O trabalho reuniu 260.959 participantes sem histórico prévio de doença coronariana e acompanhou cada pessoa por um período médio de 20 anos. Os pesquisadores compararam o índice de massa corporal (IMC) com duas medidas de gordura abdominal, a circunferência da cintura (CC) e a relação cintura-quadril (RCQ), e cruzaram os dados com nove desfechos cardiovasculares, entre eles infarto, AVC, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e morte por causas cardíacas.
O estudo foi publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC).
O que o estudo descobriu
Entre os participantes com peso considerado normal pelo IMC, 5% tinham circunferência da cintura elevada e 18% tinham relação cintura-quadril elevada, segundo o Cross-Cohort Collaboration. Entre os participantes com sobrepeso, os percentuais sobem para 39% e 40%, respectivamente.
Já entre os participantes com obesidade, 9% tinham circunferência da cintura baixa e 45% tinham relação cintura-quadril baixa. Os números mostram que o IMC sozinho classifica de forma errada uma parcela relevante das pessoas.
O risco muda mesmo com peso normal
Pessoas com peso normal ou sobrepeso e gordura abdominal elevada tiveram de 15% a 50% mais risco para a maioria dos nove desfechos cardiovasculares avaliados, aponta os pesquisadores. O aumento apareceu mesmo quando o IMC indicava peso saudável.
Michael J. Blaha, diretor de pesquisa clínica do Ciccarone Center for the Prevention of Cardiovascular Disease, da Johns Hopkins University, nos EUA, e autor sênior do estudo, afirmou: “De fato, a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril parecem reclassificar o risco definido pelos limites tradicionais do IMC.” Segundo Blaha, “vimos indivíduos com peso clinicamente normal que tinham adiposidade central elevada e alta relação cintura-quadril, associados a maior risco na maioria dos desfechos.”
Obesidade não é garantia de risco maior
Participantes com obesidade e circunferência da cintura baixa não tiveram risco significativamente diferente para a maioria dos desfechos, comparados a quem tinha peso normal e cintura baixa. A exceção foi a mortalidade por todas as causas, que ficou menor nesse grupo, segundo o Cross-Cohort Collaboration.
Entre as pessoas com obesidade, a fração de eventos atribuível ao excesso de gordura abdominal foi alta. A circunferência da cintura elevada respondeu por 48,9% dos casos de insuficiência cardíaca, 46,2% dos casos de fibrilação atrial e 36,3% das mortes por doença coronariana nesse grupo, aponta o estudo.
O que a autora principal recomenda
Zeina A. Dardari, epidemiologista e autora principal do estudo, vinculada ao Ciccarone Center for the Prevention of Cardiovascular Disease, da Johns Hopkins University, declarou que “nossos achados reforçam o papel decisivo de identificar a adiposidade central elevada, mesmo em pessoas com IMC normal ou na faixa de sobrepeso. Depender apenas do IMC pode levar à classificação incorreta do risco cardiovascular em uma ampla gama de desfechos cardiovasculares.”
“Incentivamos os médicos a considerar a distribuição da adiposidade central em todo o espectro do IMC ao avaliar o risco cardiovascular em contextos de prevenção primária”, Dardari acrescentou.
O que o estudo não prova
O desenho do estudo é observacional. Os pesquisadores ajustaram os resultados por idade, sexo, raça, escolaridade, tabagismo, diabetes, hipertensão e uso de medicamentos, mas não tinham dados sobre atividade física, alimentação ou risco genético para obesidade, fatores que também influenciam o risco cardiovascular.
A circunferência da cintura e a relação cintura-quadril foram medidas uma única vez, no início do acompanhamento. Isso limita a análise sobre como mudanças na gordura abdominal ao longo da vida afetam o risco. Por se tratar de um estudo observacional, os resultados mostram associação, e não causa e efeito.
Harlan M. Krumholz, editor-chefe do JACC e professor da Yale School of Medicine, afirmou que “é hora de abandonar o foco exclusivo no índice de massa corporal.” Segundo Krumholz, “este estudo extremamente relevante, baseado em dados de centenas de milhares de participantes em estudos de coorte de grande escala, mostra com autoridade que a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril fornecem informações essenciais sobre o risco cardiovascular, mesmo entre pessoas com IMC considerado normal. Onde a gordura se distribui importa, e essas medidas simples deveriam fazer parte da avaliação de rotina do risco cardiovascular.”
Como aplicar isso na prática
Os critérios usados no estudo definem cintura elevada acima de 88 centímetros em mulheres e acima de 102 centímetros em homens. Para a relação cintura-quadril, o corte considerado alto é acima de 0,85 em mulheres e acima de 0,90 em homens, segundo os parâmetros do National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) citados no estudo.
A recomendação dos autores é que médicos meçam a cintura e o quadril do paciente junto com o IMC nas consultas de rotina, principalmente na prevenção primária de doenças cardiovasculares. A medida isolada em casa não substitui a avaliação clínica.
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