Cientistas descobrem por que pessoas diferentes imaginam a mesma história ao ouvir a mesma música

Estudo com ressonância magnética mostra que ouvintes diferentes criam narrativas semelhantes ao escutar o mesmo trecho musical.

Um estudo da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, mostra que pessoas diferentes imaginam histórias parecidas ao ouvir a mesma música. A pesquisa identificou, pela primeira vez, um padrão cerebral compartilhado por trás dessas narrativas mentais.

A pesquisa foi publicada na revista Nature Communications por uma equipe do Departamento de Psicologia e do Instituto de Neurociência da Universidade Princeton, em parceria com o Departamento de Música da mesma instituição.

Os cientistas usaram ressonância magnética funcional para acompanhar 20 voluntários enquanto eles ouviam dez trechos musicais instrumentais de um minuto e imaginavam uma história para cada um. Em média, 71% dos participantes descreveram histórias parecidas com a narrativa mais comum associada a cada trecho, segundo avaliação de dois pesquisadores independentes.

Quando o mesmo exercício foi repetido com as histórias narradas em voz alta, em vez de música, a coincidência subiu para 94%.

Onde o cérebro registra a semelhança entre as histórias

A primeira etapa da análise comparou o padrão de atividade cerebral de cada participante com a média do grupo, trecho por trecho. Esse padrão apareceu de forma significativa no córtex auditivo, no giro temporal superior e na porção posterior do giro temporal médio, tanto durante a escuta da música quanto durante o relato verbal da história imaginada.

Nas duas condições envolvendo música, o efeito também apareceu no córtex cingulado posterior e no precúneo, áreas ligadas à recuperação de memórias e à construção de cenas mentais. Já a condição de fala evocou um padrão parecido, mas concentrado quase só nas regiões auditivas.

O padrão vai além da audição

Depois, os pesquisadores buscaram um sinal que se repetisse nas três condições ao mesmo tempo, sendo ouvir a música, relatar a história e ouvir a versão falada da mesma narrativa. Esse cruzamento revelou atividade em regiões associadas à chamada rede de modo padrão, um conjunto de áreas do cérebro que atua quando a mente processa significado e narrativa, e não apenas som.

As regiões identificadas incluem partes do giro temporal médio, o córtex cingulado posterior, áreas visuais de associação e pontos ao redor da junção temporoparietal. Segundo os autores, esse mapa se aproxima do que estudos anteriores já haviam encontrado ao comparar o cérebro de pessoas assistindo a um mesmo filme, o que sugere que música e cinema podem acionar mecanismos parecidos de construção de sentido.

Como a semelhança entre as histórias foi confirmada

Para verificar se os relatos eram mesmo específicos de cada trecho, e não apenas parecidos entre si por acaso, a equipe converteu cada narrativa em um vetor numérico usando um modelo de linguagem chamado e5-mistral-7b-instruct, treinado para representar o significado de um texto. Essa representação permite calcular, matematicamente, o quanto duas histórias se aproximam em conteúdo.

O resultado mostrou similaridade de 0,65 entre os relatos motivados por música e a narrativa de consenso do respectivo trecho, contra 0,61 quando os rótulos eram embaralhados ao acaso. Na condição de fala, a similaridade chegou a 0,75, contra 0,62 no embaralhamento aleatório. Ambas as diferenças foram estatisticamente significativas.

Limites da amostra e da generalização

Os 20 participantes eram estudantes da Universidade Princeton, selecionados por critérios específicos de imaginação e envolvimento musical antes de entrar no experimento. Dois dos dez trechos musicais originais foram excluídos da análise porque o som ficou baixo dentro do equipamento de ressonância.

Os próprios autores reconhecem que o tamanho da amostra permite demonstrar que o fenômeno existe, mas não é suficiente para medir o quanto fatores como treinamento musical, personalidade ou cultura influenciam a força desse padrão cerebral. Eles apontam essa investigação como próximo passo da pesquisa.

Imagine receber conteúdos como este todas as semanas, já adaptados ao seu veículo e prontos para publicação.

Quero testar o Pautas Extras

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.