Um microrganismo do mar consegue gerar uma célula dentro da outra
Batizado em homenagem a um pesquisador escocês, novo gênero foi encontrado em polvos, trutas e num brejo salgado da Escócia.

Uma equipe de cientistas do Reino Unido descreveu Caledochytrium aldermanii, novo gênero e espécie de microrganismo marinho com reprodução inédita. A descoberta saiu na revista científica Protist.
Batizada em homenagem ao pesquisador David James Alderman, a espécie foi isolada de forma independente três vezes por pesquisadores da empresa escocesa Strameno Ltd, da Heriot-Watt University, na Escócia, e do Centre for Environment, Fisheries and Aquaculture Science (CEFAS), no Reino Unido.
As duas primeiras coletas ocorreram entre 1976 e 1981, em lesões de polvos-comuns (Eledone cirrhosa) e de trutas-arco-íris (Oncorhynchus mykiss). A terceira veio de uma amostra de solo de brejo salgado colhida em 2015 na baía de Tyningham, na costa leste da Escócia.
O sequenciamento do gene 18S rRNA, com 1.628 pares de base, mostrou identidade de 100% entre cinco linhagens da espécie e apenas 84% de semelhança com o parente mais próximo já catalogado, o gênero Aurantiochytrium. Essa diferença genética justificou a criação de um gênero totalmente novo, batizado de Caledochytrium, em referência à Caledônia, nome antigo da Escócia.
Como funciona a reprodução inédita
Caledochytrium aldermanii pertence ao grupo dos thraustoquitrídeos, microrganismos marinhos antes confundidos com fungos e hoje classificados como protistas heterocontes. A novidade descrita pelos pesquisadores é um método de reprodução batizado de vacúolo reprodutivo.
Nesse processo, uma célula madura forma um vacúolo interno e passa a produzir uma ou mais células menores dentro dele. Quando a célula-mãe se rompe, as células-filhas são liberadas já prontas para crescer.
Em culturas de crescimento rápido, uma célula-filha recém-liberada já pode conter dentro de si uma célula-neta, e em casos raros até uma célula-bisneta. Nenhum outro membro do grupo dos Labyrinthulomycetes havia registrado esse mecanismo até então.
Outras formas de se espalhar no ambiente
Além do vacúolo reprodutivo, a espécie usa pelo menos três outras estratégias para se dispersar. Ela forma esporângios que liberam esporos com dois flagelos de tamanhos diferentes, células imóveis chamadas aplanósporos que deslizam sobre uma rede externa até se fixar, e amebas que mais tarde se arredondam e se dividem em duas.
As células adultas medem entre 7 e 8 micrômetros de diâmetro e ficam cobertas por escamas de proteína e polissacarídeos sulfatados, característica usada para identificar o grupo. Segundo os pesquisadores, essa plasticidade reprodutiva sugere que o organismo funciona como decompositor ambiental e, em hospedeiros animais debilitados, também pode agir como patógeno oportunista.
O que a descoberta muda para o mercado de ômega-3
Thraustoquitrídeos como Caledochytrium aldermanii já são estudados como fonte alternativa de ômega-3 de cadeia longa (como o DHA e o EPA) usados em suplementos e em ração para aquicultura. Na análise de uma das linhagens (chamada CA1) o DHA chegou a 67% do total de ácidos graxos, um dos maiores percentuais já relatados em estudos de triagem desse tipo de micro-organismo.
Isso não significa, porém, que o composto esteja pronto para virar produto em larga escala. Os próprios autores registram que o percentual de DHA variou entre 39% e 67% conforme a linhagem, e que mais de quarenta anos de cultivo em laboratório podem ter alterado essas características nas cepas mais antigas.
O teor de proteína das células secas ficou em 58%, e a produção de carotenoides e de exopolissacarídeos ainda está em fase de análise preliminar, sem estimativa de custo ou de escala industrial.
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