Autoestima alta ou baixa: qual delas torna alguém mais agressivo?
Meta-análise com 40.688 pessoas e 47 estudos não confirma nem a teoria da baixa autoestima nem a do "lado sombrio" da alta.

Uma meta-análise com 40.688 participantes não encontrou relação causal entre autoestima e agressão futura. O estudo, publicado no periódico Journal of Personality and Social Psychology, contraria décadas de debate científico.
A pesquisa foi conduzida por Jasmin A. Aebi, Oliver Lüdtke, Max Lustenberger e Ulrich Orth, do Departamento de Psicologia da Universidade de Berna, na Suíça, com participação do Instituto Leibniz para Educação em Ciências e Matemática, da Alemanha.
A equipe reuniu dados de 47 amostras independentes, extraídas de 43 relatos científicos publicados entre 1995 e 2023. Os participantes tinham entre 8,9 e 25,4 anos de idade em média, e o financiamento veio do Fundo Nacional Suíço de Ciência.
O que o estudo testou
Há décadas, psicólogos discutem se a baixa autoestima leva alguém a agredir outras pessoas, ou se, ao contrário, é a autoestima alta e inflada que gera esse comportamento, ideia batizada de “lado sombrio da autoestima elevada” em 1996.
Os autores usaram um modelo estatístico chamado modelo de painel dinâmico, que isola o efeito de uma variável sobre a outra ao longo do tempo. Essa técnica controla traços estáveis de personalidade que poderiam confundir os resultados.
Os pesquisadores pré-registraram a análise na Open Science Framework em 25 de outubro de 2023, antes de examinar os dados. Essa etapa reduz a chance de os cientistas ajustarem a hipótese depois de ver o resultado.
Nenhuma das duas teorias se confirmou
Os cálculos não mostraram efeito significativo da autoestima sobre agressões futuras, nem o caminho inverso, de agressões sobre a autoestima futura. Os dois coeficientes ficaram próximos de zero, segundo o modelo principal do estudo.
Em uma segunda análise, que levou em conta o tempo exato entre as medições de cada estudo original, apareceu um efeito pequeno, mas estatisticamente significativo. Agredir outras pessoas reduziu a autoestima futura, com pico de efeito em torno de 3,6 meses depois do comportamento agressivo. Já o efeito da autoestima sobre a agressão continuou sem significância estatística nessa segunda análise.
Apesar da ausência de efeito ao longo do tempo, autoestima e agressão apareceram correlacionadas no mesmo momento da vida das pessoas, com força considerada grande pelos autores. Ou seja, quem tem menos autoestima tende a ser mais agressivo no presente, mas isso não significa que uma característica cause a outra no futuro.
Um único recorte fez diferença
Ao testar variações dentro do grupo de agressão, os pesquisadores identificaram que o efeito de agredir sobre a queda de autoestima foi mais forte nos casos de agressão hostil, aquela motivada por raiva impulsiva, do que na agressão instrumental, usada para obter algum ganho social.
A forma como a agressão foi medida também alterou o resultado. Quando o próprio participante relatava seu comportamento agressivo, a correlação com baixa autoestima ficou mais forte. Quando outra pessoa avaliava esse comportamento, a correlação perdeu significância estatística.
Por que isso importa fora do laboratório
A conclusão tem peso prático para escolas e programas de saúde mental que buscam elevar a autoestima de crianças e adolescentes como forma de reduzir violência. Segundo os autores, não há evidência de que aumentar a autoestima produza efeito colateral de mais agressão, nem prova de que essa estratégia, isolada, previna comportamento agressivo.
Os próprios pesquisadores reforçam que a autoestima segue relevante como alvo de intervenção para o bem-estar psicológico, mesmo sem relação direta com agressão futura.
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