Por que jovens chinesas viram fãs de imperadores mortos há séculos
Na China, jovens tratam imperadores e generais mortos há séculos como ídolos, com cartas, remédios e visitas a túmulos históricos.

Um grupo de fãs na China transforma túmulos de imperadores mortos há séculos em destino de peregrinação com ofertas emocionais. O movimento, batizado de shitong nü, aplica lógica de fã-clube moderno a figuras históricas.
Segundo reportagem do Sixth Tone, o fenômeno ficou visível em ofertas incomuns deixadas em sepulturas históricas. Visitantes levaram terra de Pequim ao túmulo de Guo Rong, imperador da dinastia Zhou Posterior que reinou entre 951 e 960 e morreu em expedição militar ao norte do país.
No túmulo do general Cao Cao, líder militar do período dos Três Reinos entre 220 e 280, guardiões recebem pacotes de ibuprofeno, remédio ligado às enxaquecas que marcaram sua biografia. Já a sepultura de Zhang Juzheng, funcionário da dinastia Ming entre 1368 e 1644, ganhou um livro de psicologia infantil, referência irônica à sua destituição pelo imperador que ajudou a criar.
Da fanfiction para o túmulo
O movimento nasceu inspirado no doujin japonês, tradição de fanfiction focada em personagens reais ou fictícios. Em vez de heróis pop, as fãs escolhem imperadores, generais e conselheiros que viveram há centenas de anos. Ao contrário da ficção histórica tradicional, o interesse não está no que a figura fez, mas em quem ela era.
As fãs se descrevem como admiradoras de “ídolos underground”, expressão emprestada do termo japonês chika aidoru, usado para grupos que ainda não estouraram no mainstream. Na China, o termo ganhou sentido literal, pois os ídolos estão, de fato, embaixo da terra.
Solo stans, shippers e casais tóxicos
A comunidade se divide em dois perfis complementares. Solo stans dedicam atenção a uma única figura histórica e, em alguns casos, imaginam relacionamentos românticos com o ídolo escolhido. Shippers inventam vínculos afetivos entre duas ou mais figuras do passado, e os dois perfis podem se sobrepor.
Um exemplo frequente envolve Cao Pi, filho de Cao Cao, e uma de suas esposas, Lady Zhen, morta a mando dele. Parte das fãs recria a história como romance trágico. Outra parte devolve autonomia à personagem, cujo nome pessoal não chegou aos registros, imaginando-a livre para escolher o próprio destino.
Por que os mortos viram alvo de afeto
Para as fãs, figuras históricas trazem uma segurança emocional que celebridades vivas não oferecem. Não há risco de o ídolo decepcionar, cair em escândalo ou contrariar a imagem que os fãs construíram dele.
Os registros também ajudam, já que cronistas antigos raramente descreviam gestos cotidianos ou conversas informais. Essa lacuna documental abre espaço para a imaginação preencher os detalhes. Os personagens não podem discordar da própria história recontada, o que elimina o risco de contestação.
É como se um fã brasileiro peregrinasse ao Museu Imperial de Petrópolis para deixar uma carta de conselho amoroso a Dom Pedro II.
Livros raros, feriados e mapas de túmulos
A prática segue um roteiro comum. As fãs leem fontes históricas, produzem conteúdo e visitam locais ligados ao personagem, e editoras de livros antigos já relataram picos repentinos de vendas.
Na rede social chinesa Xiaohongshu, também chamada de RedNote, fãs trocam dicas para comprar edições raras, como a coletânea completa de Cao Pi. Datas como o Festival Qingming, dedicado à limpeza de túmulos, viram ocasião para peregrinações e projetos criativos coletivos.
Guias publicados em redes sociais ajudam a localizar até ruínas pouco conhecidas, onde muitas fãs deixam bilhetes ou presentes ligados à vida do personagem homenageado.
Entre aprovação oficial e crítica acadêmica
O caráter histórico do hobby garante uma legitimidade cultural que outras formas de fã-clube não recebem. Veículos estatais chineses chegaram a elogiar publicamente as fãs por “fortalecer a confiança cultural”, além de valorizar o patrimônio histórico do país.
Cemitérios se adaptaram à movimentação. Museus passaram a vender produtos licenciados e fechar parcerias com jogos voltados a esse público. Críticos temem que a “fandomização” da história distorça a compreensão pública sobre o passado.
Para as próprias fãs, o objetivo é mais simples. Elas buscam viver um hobby pessoal, guiado por afinidade e não por rigor moral, sem a pretensão de produzir conhecimento histórico.
O poeta e funcionário chinês Yang Shen, que viveu no século 16, resumiu esse impulso de manter os mortos presentes. Segundo ele, “os livros de história guardam apenas um punhado de nomes, enquanto as colinas estão repletas de túmulos esquecidos”. Na prática cotidiana, o hobby transforma essa lacuna em motivo de convivência com o passado.
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