Por que quase tudo ao seu redor está parecendo cada vez mais igual
Teoria da psicologia mostra como a busca por eficiência reduz a diversidade que sustenta ciência, cultura e bem-estar humano.

A revista Frontiers in Psychology publicou um artigo que descreve a hiperseleção, mecanismo que faz sistemas competitivos sacrificarem diversidade por metas mensuráveis. Os autores afirmam que o processo pode explicar por que música, futebol, cidades e ciência estão ficando mais parecidos entre si.
O artigo é do tipo Perspective, ou seja, um ensaio teórico e não um estudo com coleta de dados original. A autoria é de Jose C. Yong, Simon S. Groome e Edison Tan, ligados à James Cook University Singapore e à Singapore Management University, em Singapura.
O que é a hiperseleção
O termo descreve um processo de otimização repetida. Quando um formato de sucesso é identificado, ele é copiado até dominar o ambiente, enquanto opções diferentes desaparecem por não conseguirem competir.
Segundo os autores, sistemas em competição tendem a substituir metas complexas por indicadores simples e fáceis de medir. Quando a disputa por esses indicadores se intensifica ao extremo, o processo vira hiperseleção, um afunilamento que elimina alternativas e reduz a variedade de soluções disponíveis para desafios futuros.
O artigo cita como exemplo a música pop. A faixa “Bohemian Rhapsody”, do Queen, lançada em 1975, dura quase seis minutos e rompe a estrutura tradicional de uma música de sucesso. Hoje, plataformas de streaming colocam milhões de faixas competindo pela mesma atenção, o que empurra artistas e produtores para fórmulas já testadas, como duração, ritmo e velocidade até o refrão.
Como funciona a hiperseleção
Um indicador simples, como número de citações ou engajamento em uma postagem, funciona como um atalho para medir algo complexo, como qualidade científica ou relevância cultural. Os autores chamam esse atalho de proxy. Ele existe porque avaliar a meta real, em toda a sua complexidade, custaria tempo e recursos que sistemas competitivos não têm.
O problema aparece quando a disputa pelo proxy vira o objetivo em si. A partir de certo ponto, otimizar o indicador deixa de significar melhorar aquilo que ele deveria representar e passa a substituí-lo. Os autores chamam esse desvio de descolamento entre proxy e meta original.
O artigo traz um esquema que resume esse ciclo. De um lado, a identificação de proxies somada a um ambiente de seleção intenso reduz a diversidade de estratégias viáveis. De outro, o sistema atinge as próprias metas com eficiência recorde, mas enfraquece o vínculo com o objetivo que o proxy deveria servir.
Como o mesmo padrão aparece no futebol, na ciência e nas cidades
No futebol profissional, táticas vencedoras são copiadas por outras equipes até que os times passem a jogar de forma parecida, com menos espaço para estilo individual.
Na ciência, pesquisadores são avaliados por publicações, citações e captação de recursos. Isso pode empurrar cientistas para estudos mais fáceis de executar e de publicar, em vez de ideias arriscadas com potencial de gerar descobertas importantes.
Nas cidades, estabelecimentos comerciais bem-sucedidos são replicados, enquanto os que não competem desaparecem. Por isso, cidades distantes entre si acabam com as mesmas redes de cafeterias, lojas de tecnologia e shoppings de luxo.
Inteligência artificial como acelerador
Os autores tratam sistemas de recomendação e modelos de linguagem como a forma mais avançada de hiperseleção já criada. Diferente de tecnologias anteriores, essas ferramentas atualizam os próprios critérios de sucesso a partir do comportamento de quem usa o produto.
O resultado de um ciclo de otimização, como uma publicação com muito engajamento ou uma resposta de inteligência artificial bem avaliada, alimenta o ciclo seguinte. Com o tempo, essa repetição estreita o espaço de ideias que aparecem para quem usa a ferramenta, e conteúdos de origens diferentes tendem a soar cada vez mais parecidos entre si.
Efeitos na saúde e no comportamento
O artigo recorre à hipótese da higiene para descrever um paradoxo parecido no corpo humano. O sistema imunológico se desenvolveu em contato com ambientes microbianos diversos. A busca por limpeza extrema reduz esse contato, o que os autores associam ao aumento de alergias e doenças autoimunes.
No campo psicológico, os autores argumentam que ambientes otimizados para conforto e segurança reduzem a exposição a situações difíceis, conflitos e incerteza. Essa exposição, segundo eles, ajuda a formar resiliência e capacidade de lidar com adversidade ao longo da vida.
O que os autores propõem
O texto não defende o abandono de métricas nem de eficiência, já que muitos sistemas dependem delas para funcionar. A proposta central é reconhecer que valores como confiança, criatividade e descoberta resistem a ser reduzidos a um número, e que perder espaço para eles tem custo.
Uma lavoura em monocultura rende mais no curto prazo, mas perde a variedade genética que a protegia de uma praga nova.
Entre as saídas sugeridas estão financiar pesquisa exploratória ao lado da pesquisa orientada por métricas e manter abordagens pedagógicas diferentes em vez de um modelo único de prova. Nas cidades, os autores sugerem preservar a identidade local em vez de maximizar apenas o retorno comercial.
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