Anistia Internacional testou a Meta antes das eleições no Brasil, e o resultado preocupa

Teste da Anistia Internacional mostra que a Meta aprovou metade dos anúncios com desinformação eleitoral antes da eleição de outubro no Brasil.

(Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A Anistia Internacional testou a moderação de anúncios eleitorais da Meta no Brasil. Segundo a organização não governamental que defende os direitos humanos, o sistema aprovou mais da metade do conteúdo com desinformação enviado no experimento.

A organização enviou 15 anúncios em português à plataforma de anúncios do Facebook entre janeiro e maio de 2026, direcionados à população brasileira em idade de votar. Catorze deles continham desinformação eleitoral construída a partir de narrativas reais identificadas em conversas no Facebook e no X no mesmo período.

Um anúncio era neutro, usado como controle. Facebook aprovou oito dos 14 anúncios com desinformação para publicação. Os outros sete foram sinalizados para verificação de identidade do anunciante, por tratarem de temas sociais, eleições ou política, mas não foram rejeitados especificamente por conterem desinformação.

O teste ocorreu cerca de cinco semanas antes da eleição presidencial brasileira, marcada para 4 de outubro de 2026.

Como funcionou o teste da Anistia Internacional

A equipe responsável pelos anúncios não estava fisicamente no Brasil. Os anúncios foram enviados de Londres, sem uso de VPN para simular localização brasileira.

A conta usada na plataforma não passou pelo processo de verificação de identidade da Meta. Isso permitiu isolar o teste da influência do histórico de uso da conta sobre os resultados de moderação.

A publicação de todos os anúncios foi programada para uma data futura. Assim, a Anistia Internacional pôde cancelar o conteúdo aprovado antes que ele chegasse ao público.

O que os anúncios tentavam simular

Os 14 anúncios com desinformação reproduziam três táticas associadas a práticas autoritárias:

  1. deslegitimação eleitoral,
  2. construção de um inimigo político e
  3. autoritarismo centrado em segurança.

Um dos anúncios testados afirmava que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva “roubará as eleições”. Cinco dos sete anúncios com esse tipo de acusação contra adversários foram rejeitados pela Meta.

Outro anúncio pedia abertamente intervenção militar, afirmando que “precisamos de uma revolução militar, não votem nas eleições, o exército retomará o poder se a abstenção superar 50%”. Três de cada quatro anúncios com esse teor passaram pela moderação da plataforma.

Falhas na aplicação das próprias regras da Meta

Segundo a Anistia Internacional, os anúncios não deveriam ter sido aceitos sem a verificação de identidade exigida pela legislação eleitoral brasileira e pelas próprias políticas da Meta para conteúdo eleitoral.

Como a conta não estava verificada, os anúncios também não exibiram o aviso “Pago por”, obrigatório para publicidade desse tipo no Brasil.

A Meta usa inteligência artificial para identificar de forma proativa conteúdo que viole suas políticas. Depois dessa triagem automática, o material passa por revisão humana ou automatizada antes de uma ação de aplicação, como remoção ou rejeição do anúncio.

O que está em jogo a cinco semanas da eleição

No primeiro trimestre de 2026, 98% da receita da Meta veio de publicidade, um modelo baseado na segmentação de usuários por localização, dados demográficos, interesses e comportamento online.

Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, disse que “é extremamente alarmante que o sistema de moderação da Meta não tenha detectado mais da metade dos anúncios relacionados às eleições que continham desinformação”.

Ummar Bashir, pesquisador e assessor de Inteligência Artificial e Direitos Humanos da Anistia Internacional, afirmou que a investigação “indica que os sistemas de moderação do Facebook podem não estar detectando de forma confiável conteúdo com desinformação relacionado às eleições”.

Contexto regulatório no Brasil

Desde as eleições de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral exige que plataformas removam rapidamente conteúdo falso ou descontextualizado sobre o processo eleitoral, sob risco de multa e suspensão.

Antes das eleições municipais de 2024, o uso de inteligência artificial também foi restringido para evitar manipulação do processo eleitoral. No mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal suspendeu o X, antigo Twitter, por descumprimento de ordens judiciais.

Em março de 2026, uma nova resolução do Tribunal Superior Eleitoral detalhou os conteúdos que as plataformas devem eliminar e proibiu o uso de inteligência artificial generativa para classificar, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas, campanhas e partidos políticos.

A resposta da Meta

A Anistia Internacional enviou uma carta à Meta em 21 de julho de 2026, pedindo esclarecimentos sobre as falhas identificadas na moderação de anúncios eleitorais. Até a divulgação do relatório, a empresa não havia respondido.

A organização recomenda que a Meta amplie os recursos em português brasileiro para moderação de conteúdo e publique uma análise de diligência devida em direitos humanos específica para o Brasil.

Imagine receber conteúdos como este todas as semanas, já adaptados ao seu veículo e prontos para publicação.

Quero testar o Pautas Extras

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.