Universitário gastou menos de R$ 10 para traduzir com IA o novo romance de Murakami

Ferramenta de IA criada por um estudante traduziu o novo romance de Murakami em 4 horas e gerou debate sobre direitos autorais na China.

Haruki Murakami (Crédito: Wikimedia Commons)

Um estudante universitário chinês usou inteligência artificial para traduzir o novo romance do escritor e tradutor japonês Haruki Murakami para o mandarim em quatro horas. A versão não oficial circulou horas depois do lançamento oficial no Japão.

De acordo com o Sixth Tone, o projeto se chama Wenyi e foi criado por um universitário identificado pelo pseudônimo Ping Ming, aluno de literatura da Universidade Normal de Nanjing, na província de Jiangsu, na China.

A ferramenta divide o romance em blocos de até 2 mil palavras, traduz cada trecho com o modelo chinês de inteligência artificial DeepSeek e mantém um glossário automático de termos para garantir consistência.

O resultado, publicado no arquivo digital Z-Library, custou 13 yuans, equivalentes a R$ 9,93 em créditos do DeepSeek. O romance “A História de Kaho”, sobre uma ilustradora de livros infantis que transita entre sonho e realidade, chegou às livrarias do Japão em 3 de julho de 2026.

Como a ferramenta evita erros de tradução em bloco

Cada bloco do livro é enviado separadamente ao modelo de IA, com sobreposição de seis parágrafos entre um trecho e outro. Ping Ming afirma que enviar dezenas de milhares de palavras de uma só vez aumenta o risco de a inteligência artificial inventar trechos que não existem no original.

Para treinar o sistema, ele usou obras de literatura em inglês, incluindo textos do escritor norte-americano Edgar Allan Poe e do escocês Ian McEwan. Ping é fã de Murakami e já havia lido, em 2023, uma tradução não oficial malfeita de outro romance do autor, feita com a ferramenta gratuita DeepL.

Primeira versão trouxe falhas de nomes e tom

A primeira tradução saiu com problemas. Apelidos da protagonista Kaho ficaram inconsistentes porque não entraram no glossário automático, e parte do texto soou mecânica.

Ping refez o processo com ajustes no código, pedindo à IA mais atenção aos nomes próprios e uma revisão completa do texto. “Se uma tradução não corresponde ao original, eu simplesmente chamo isso de erro, isso não é negociável”, afirma Ping Ming, criador do projeto Wenyi.

Tradutores humanos desistiram de publicar a própria versão

Um tradutor que assina como Nanshan Youlu, que trabalha em período parcial com traduções do japonês para o chinês em uma empresa de tecnologia de Pequim, publicava aos poucos uma tradução manual do mesmo romance na rede social Xiaohongshu desde 3 de julho. A primeira postagem recebeu mais de 2 mil curtidas.

Ao terminar o último capítulo, ele e um amigo apagaram a própria versão da internet, alegando que a tradução do Wenyi já era quase totalmente fiel ao texto japonês. “Quando um tradutor humano trabalha em um romance, ele lê o livro inteiro antes e constrói sua própria interpretação. É praticamente impossível alcançar 100% de fidelidade nas palavras”, diz Nanshan Youlu.

Fluência não é o mesmo que capturar o estilo do autor

O que a IA demonstrou até aqui é fluência gramatical, não domínio do estilo literário. Lin Shaohua, tradutor de obras de Murakami como “Kafka à Beira-Mar” e “Norwegian Wood”, disse ao jornal China Newsweek que a tradução do Wenyi é gramaticalmente coerente e legível, mas não captura o tom que caracteriza a literatura do autor.

Editoras de livros também preferem tradutores humanos para textos complexos. “Se o original é direto de entender, eu escolheria a tradução por IA. Mas se for algo mais complexo, como ficção científica dura, eu escolheria um tradutor humano”, diz Liu Chengxu, editor da Guangdong People’s Publishing House.

Um tradutor profissional leva cerca de seis meses para traduzir um livro de 350 páginas como o de Murakami, e o processo completo, com revisão e publicação, chega a um ano até o livro estar nas livrarias. Tradutores humanos recebem entre 100 e 120 yuans por mil caracteres, valor muito acima do custo da tradução por IA.

Direitos autorais ficam em zona cinzenta na legislação chinesa

A lei chinesa de direitos autorais permite o uso de obras publicadas para estudo, pesquisa ou apreciação pessoal, mas essa exceção não vale quando o uso prejudica os interesses comerciais do detentor dos direitos.

A Convenção de Berna garante proteção legal a autores estrangeiros na China, incluindo Murakami. Em 2023, o país também passou a exigir, pelas Medidas Provisórias para Gestão de Serviços de IA Generativa, que empresas de tecnologia treinem seus modelos apenas com dados de fontes legais.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.