O fóssil que intrigou até Leonardo da Vinci pode ter dono
Estudo com fósseis da Itália, de Portugal e da Polônia aponta pequenos crustáceos como prováveis autores do enigmático desenho hexagonal do fundo do mar.

Um estudo publicado na revista científica Earth-Science Reviews aponta crustáceos como os prováveis autores do Paleodictyon, um padrão hexagonal encontrado em sedimentos marinhos de todo o mundo. A pesquisa reúne evidências que favorecem artrópodes sobre outras hipóteses discutidas havia mais de um século.
O Paleodictyon é uma marca fóssil formada por túneis retos que se encontram em ângulos de 120 graus, montando uma malha de hexagonais que lembra uma colmeia.
A estrutura aparece em rochas de todas as eras, do início do período Cambriano até sedimentos do fundo oceânico atual, mas ninguém nunca flagrou o organismo que a produz.
O estudo, conduzido por Andrea Baucon, da Università di Cagliari, na Itália, com colegas de Portugal, Polônia e China, buscou o autor da marca ao comparar sua geometria com o comportamento de diferentes grupos de animais.
Como os pesquisadores mediram os fósseis?
A equipe analisou fósseis das coleções do Museu de História Natural de Piacenza, na Itália, além de espécimes de Nozelos, em Portugal, e da Polônia. No total, mediram 1.314 pontos em nove fósseis, registrando o comprimento dos lados e o ângulo de cada canto das células hexagonais.
Os ângulos internos variaram em média 8,5 graus em torno do valor ideal de 120 graus, e 90,6% das 438 medições ficaram dentro de 15 graus dessa meta. O comprimento dos lados também se manteve estável, com desvio médio de apenas 0,5 milímetro dentro de cada célula.
Por que isso aponta para um artrópode?
O detalhe mais revelador não é a precisão em si, mas o jeito como os erros aparecem e desaparecem. Quando um vértice saía do padrão, a célula vizinha corrigia o desvio na jogada seguinte, sem deixar o erro se acumular pelo resto da rede. É um comportamento parecido com o de quem faz crochê e corrige o ponto errado assim que a agulha passa, sem deixar o defeito se espalhar pela peça inteira.
Esse tipo de correção local exige orientação espacial e capacidade de estimar distância percorrida, habilidades associadas ao sistema nervoso de artrópodes como abelhas, formigas e caranguejos. Organismos com corpo mole e esqueleto hidrostático, como vermes, tendem a cavar trajetos mais tortuosos, porque o corpo segue o caminho de menor resistência no sedimento. Já o esqueleto rígido e os apêndices articulados dos artrópodes permitem trechos retos e mudanças bruscas de direção, exatamente o padrão observado no Paleodictyon.
O momento também ajuda a hipótese. O primeiro registro do Paleodictyon, no início do Cambriano, coincide com os primeiros fósseis de artrópodes conhecidos. Entre os suspeitos, os autores destacam os dois grupos de pequenos crustáceos, os isópodes e os anfípodes, principalmente para exemplares mais recentes que o período Ordoviciano.
O mistério já foi resolvido?
Não. O estudo reúne evidência favorável aos artrópodes e afasta hipóteses antigas, como algas, esponjas e organismos parecidos com vermes, mas não prova quem cava o Paleodictyon hoje. Nenhuma expedição já flagrou um animal vivo dentro de uma dessas estruturas no fundo do mar.
Os autores propõem a criação de observatórios submarinos em áreas do oceano Pacífico onde o Paleodictyon continua sendo formado, com câmeras de longa duração e coleta de material genético do sedimento ao redor das estruturas. Só a observação direta do organismo em ação, ou a descoberta de um fóssil com o autor preservado dentro do túnel, deve encerrar de vez uma dúvida que atravessa a paleontologia desde o século 19.
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