Austrália inicia vacinação em massa de pinguins contra gripe aviária

Programa inédito vacina milhares de pinguins-pequenos em Phillip Island contra o H5N1, que já matou aves na Austrália e ameaça a colônia.

Pinguim-pequeno (Crédito: Wikimedia Commons)

Equipes na Austrália aplicam a primeira dose de vacina contra gripe aviária em pinguins-pequenos da ilha turística Phillip Island, em Victoria, um estado localizado no sudeste australiano. O programa é o maior esforço de vacinação de aves silvestres já tentado no mundo.

As equipes da Phillip Island Nature Parks têm vacinado pinguins-pequenos diretamente na praia, à medida que as aves retornam do mar para seus ninhos noturnos. Mais de 1.000 exemplares já receberam a primeira dose do imunizante contra o vírus H5N1. A meta do programa é vacinar cerca de 5.000 pinguins nas colônias de Phillip Island e St Kilda, cada um recebendo uma segunda dose três semanas após a primeira.

“Essa é a primeira vez que alguém no mundo tenta algo nessa escala”, disse Catherine Basterfield, diretora executiva da Phillip Island Nature Parks ao Optimist Daily. “É bem complicado, e os pinguins são difíceis de manejar, mas temos uma equipe muito bem treinada.”

Por que a vacinação é urgente

A gripe aviária H5N1 circula entre populações de aves marinhas ao redor do mundo há vários anos. No sistema nacional de avaliação de risco da Austrália, os pinguins-pequenos estão classificados como de risco muito alto, mas a espécie não consta na lista de ameaçadas pela legislação ambiental federal do país.

Casos do vírus já foram confirmados na própria Phillip Island, incluindo em um pinguim-pequeno. Outro caso foi identificado em um pinguim-pequeno na Ilha Canguru, na Austrália do Sul. Na Ilha King, na Tasmânia, 51 pinguins morreram depois que um exemplar testou positivo, com a gripe aviária apontada como causa provável.

A corrida contra o relógio da imunidade

Um relatório do Arthur Rylah Institute mostra o principal obstáculo do programa. Pinguins levam dez semanas após a vacinação para atingir a imunidade máxima.

Se o vírus chegar com força antes desse prazo, a vacinação pode não fazer efeito a tempo. No cenário mais pessimista, o mesmo relatório aponta que até 16 mil pinguins-pequenos podem morrer.

Uma colônia com peso ecológico e econômico

A colônia de Phillip Island reúne cerca de 40 mil pinguins-pequenos. A caminhada noturna das aves da praia até os ninhos atrai por volta de 700 mil visitantes por ano e injeta cerca de $500 milhões na economia de Victoria.

Os pinguins já enfrentam os efeitos das mudanças climáticas, com tempestades mais fortes, elevação do nível do mar e menos comida disponível. A gripe aviária se soma a essas pressões. “A gripe aviária é uma ameaça que surgiu e se soma a outras ameaças que os pinguins-pequenos enfrentam, e que vão enfrentar cada vez mais nos próximos anos”, afirma John Cockrem, professor emérito da Universidade Massey e pesquisador de pinguins-pequenos.

O que a vacina pode e não pode fazer

Autoridades evitam apresentar a vacina como solução definitiva. “Isso não substitui a biosseguridade eficaz, que continua sendo essencial”, afirmou um porta-voz do governo federal australiano da área de agricultura.

James Todd, diretor-chefe de biodiversidade de Victoria, explica por que os pinguins-pequenos permitem esse tipo de programa. Eles nidificam em colônias e voltam todas as noites aos mesmos locais, o que possibilita localizar, capturar e vacinar os mesmos indivíduos em datas marcadas. A maioria das centenas de outras espécies silvestres ameaçadas pelo H5N1 não oferece essa previsibilidade.

“No caso dos pinguins-pequenos”, disse Todd, “sabemos que eles estão em risco pelo H5, são uma espécie colonial que se reproduz em grupo. São aves marinhas que entram em contato com outras aves marinhas portadoras do vírus. E também sabemos que são uma espécie icônica de alto valor para os moradores de Victoria.”

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.