Índia está criando “restaurantes” para salvar abutres ameaçados

Indianos preparam sua primeira estação de alimentação para abutres em Kulsi, com carcaças livres de diclofenaco, remédio que dizimou a espécie no país.

Fêmea de abutre-de-cabeça-vermelha no Parque Nacional de Ranthambore, na Índia (Crédito: Wikimedia Commons)

O estado de Assam, no nordeste da Índia, prepara o primeiro restaurante de abutres da região, no distrito de Kulsi. O local vai oferecer carcaças de gado livres de toxinas para as aves ameaçadas de extinção.

O projeto tem orientação do Centro de Conservação e Reprodução de Abutres (VCBC) de Rani. A população de abutres do país, estimada em cerca de 40 milhões de indivíduos na década de 1980, caiu entre 97% e 99% em poucas décadas.

O abutre-de-dorso-branco, Gyps bengalensis, teve a queda mais grave, de quase 99,9%, ligada ao uso veterinário do diclofenaco. O medicamento provoca insuficiência renal aguda em abutres que se alimentam de carcaças de animais tratados com a substância.

A Índia proibiu o uso veterinário do diclofenaco em 2006, mas a recuperação da população segue lenta e irregular.

O que é o diclofenaco e por que ele mata abutres

Animais tratados com diclofenaco mantinham resíduos do remédio nos tecidos após a morte. Abutres que comiam essas carcaças sofriam falência renal aguda. Necropsias encontraram gota visceral, órgãos danificados e depósitos de ácido úrico cobrindo tecidos internos.

Depois da proibição de 2006, o governo indiano também restringiu frascos multidose de diclofenaco de uso humano, que vinham sendo desviados para animais.

“A crise do diclofenaco devastou os abutres, mas o problema hoje é bem maior do que um único remédio”, afirma, ao The Better India, Sachin P. Ranade, diretor assistente da Sociedade de História Natural de Bombaim (BNHS) e gerente sênior do VCBC de Rani, com mais de 25 anos de trabalho em conservação de abutres.

Segundo Ranade, a expansão urbana mudou a forma como carcaças de gado são descartadas. Lixões abertos desapareceram em várias regiões, pastagens tradicionais encolheram e árvores usadas para ninhos foram perdidas.

Um posto de alimentação pensado para a sobrevivência

Um restaurante de abutres não é um projeto de turismo. É um posto de alimentação com carcaças de gado triadas para garantir ausência de remédios veterinários tóxicos, montado perto de áreas tradicionais de nidificação e pouso.

Um levantamento nacional do Instituto de Vida Selvagem da Índia encontrou declínio de quase 70% nos locais de nidificação historicamente registrados. Dos 425 sites documentados, apenas cerca de 120 seguem ativos.

Fome também ameaça a reprodução

“A fome surgiu como uma causa importante e muitas vezes ignorada do declínio dos abutres”, diz Ranade.

Ele cita observações de campo em Maharashtra, onde pesquisadores que monitoravam abutres-de-dorso-branco e abutres-indianos registraram filhotes morrendo após ficar cerca de dez dias seguidos sem alimento.

Em paisagens fragmentadas, os abutres precisam voar mais longe para achar carcaças. Adultos gastam mais energia procurando comida, enquanto os filhotes dependem só dos pais no ninho.

Assam solta os primeiros abutres nascidos em cativeiro

No início deste ano, Assam soltou na natureza seus primeiros abutres-de-dorso-branco nascidos em cativeiro, um passo importante para a conservação no estado. Ranade participou da supervisão da soltura.

As aves, criadas em centros de reprodução, foram introduzidas de forma gradual em uma paisagem desconhecida. Algumas se juntaram logo a abutres selvagens ao redor de carcaças. Outras voltaram, no início, aos poleiros do recinto onde nasceram.

Soltas semelhantes já ocorreram em Bengala Ocidental e em Haryana, à medida que a Índia amplia os esforços de reprodução em cativeiro e reintrodução.

Por que os abutres importam para a saúde pública

Abutres carregam uma imagem associada à morte e à decomposição. Mas o papel deles no ecossistema é bem mais relevante do que essa imagem sugere.

“O sistema digestivo deles é extraordinariamente eficiente. O suco gástrico do abutre neutraliza patógenos perigosos para muitos outros necrófagos, incluindo bactérias ligadas a antraz, botulismo e transmissão de raiva”, explica Ranade.

Um bando de abutres consegue limpar uma carcaça em poucas horas. Sem eles, parte desse material vira alimento para cães e ratos.

“Os abutres são saneadores ecológicos. O declínio deles rompeu o próprio ciclo ecológico”, afirma Ranade.

Outros estados também apostam em restaurantes de abutres

O distrito de Raigad, em Maharashtra, foi uma das primeiras paisagens a usar estações de alimentação para apoiar populações locais de abutres.

O distrito de Koderma, em Jharkhand, mantém um restaurante de abutres abastecido com carcaças vindas de gaushalas e prefeituras.

Gujarat anunciou um restaurante de abutres perto das colinas de Pavagadh, voltado ao abutre-de-bico-longo.

Na Reserva de Tigres de Indravati, em Chhattisgarh, as estações de alimentação são combinadas com monitoramento por GPS e redes de voluntários de vilarejos chamadas Giddha Mitra Dal.

O papel das comunidades locais

Segundo Ranade, o sucesso desses programas depende de mais do que infraestrutura.

Moradores ajudam a identificar ninhos, denunciar carcaças envenenadas, proteger árvores de pouso e garantir que carcaças de gado não estejam contaminadas.

Em alguns vilarejos, os abutres ainda são vistos, de forma equivocada, como transmissores de doenças, e não como aves que ajudam a controlá-las. Mudar essa percepção é parte do trabalho de conservação.

No distrito de Kulsi, moradores poderão depositar carcaças de gado em áreas demarcadas e livres de toxinas para que os abutres se alimentem com segurança.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.