Água de minas de carvão vira energia limpa na Inglaterra
Rede municipal usa água quente de antigos túneis de mineração a 150 metros de profundidade para aquecer 350 casas em Gateshead, na Inglaterra.

A cidade inglesa de Gateshead aquece parte de suas casas com água extraída de antigas minas de carvão inundadas. O sistema municipal opera desde março de 2023 e já atende cerca de 350 residências.
O projeto usa uma bomba de calor de seis megawatts para captar calor da água que preenche antigos túneis de mineração a cerca de 150 metros de profundidade. A rede de tubulação tem mais de cinco quilômetros e leva aquecimento a casas, além do Gateshead College, uma instituição pública de ensino profissional e superior, e do Baltic Centre for Contemporary Art, o maior centro de arte contemporânea do Reino Unido.
Segundo o governo do Reino Unido, a iniciativa deve evitar a emissão de 72 mil toneladas métricas de dióxido de carbono ao longo de 40 anos. Gateshead extraiu carvão desde 1344, atividade encerrada nos anos 1980 durante os cortes promovidos pelo governo de Margaret Thatcher.
Como a água das minas vira calor para as casas
De acordo com reportagem do Reasons to be Cheerful, a água presa nas antigas minas de Gateshead fica naturalmente aquecida a cerca de 15 graus Celsius pelo calor geotérmico da rocha. Ela é bombeada à superfície, passa por um trocador de calor e segue para uma bomba industrial que eleva a temperatura a cerca de 80 graus Celsius para abastecer a rede de distribuição.
Depois de ceder calor, a água retorna ao subsolo cerca de cinco graus mais fria e volta a se aquecer em contato com a rocha antes de ser bombeada de novo. “Você consegue pegar algo levemente morno e transformar em algo bastante utilizável para aquecimento”, explica Dan Mallin Martin, hidrogeólogo da Mining Remediation Authority (MRA), órgão público independente responsável pela gestão do legado ambiental da mineração de carvão e metais no Reino Unido.
Mallin Martin descreve as minas sob Gateshead como uma rede subterrânea interligada de grandes dimensões. Além do sistema municipal, a empresa Lanchester Wines foi a primeira companhia privada britânica a usar calor de água de mina, com dois sistemas instalados em 2017 e 2019 que somam quatro megawatts de capacidade e aquecem 33.445 metros quadrados de área de armazém.
Contas mais baixas, adesão sem muita escolha
Um morador de Gateshead que vive na mesma casa há 52 anos foi convertido à rede municipal de calor de mina dois anos atrás. Segundo ele, a troca reduziu suas contas de energia, embora tenha recebido pouca informação sobre o funcionamento do sistema antes da instalação. Ele paga 100 libras (cerca de R$ 688) por mês, e já acumulou um saldo de crédito de aproximadamente 600 libras (R$ 4.130).
Na empresa de vinhos Lanchester Wines, o gerente de energia e renováveis Chris Smith afirma que os dois sistemas da empresa reduziram a pegada de carbono dos armazéns em 80%, de 3.600 para 750 toneladas métricas ao longo de várias temporadas de aquecimento. Segundo ele, o coeficiente de desempenho costuma ficar entre cinco e seis, ou seja, cada unidade de eletricidade consumida gera de cinco a seis unidades de calor.
Michael Smith, professor associado de psicologia da Northumbria University que pesquisa a percepção local sobre o sistema, identificou as mensagens que mais repercutem entre os moradores entrevistados, incluindo contas mais baratas, menos emissões locais e orgulho de reaproveitar a infraestrutura de mineração. Para ele, as contas de energia são o fator que mais pesa na aceitação do sistema pelos moradores.
Perfurações que nem sempre acertam
Nem todo esforço de perfuração dá certo. Dos 12 poços perfurados em Gateshead, apenas quatro tiveram sucesso, resultado que Mallin Martin atribui à falta de mapas detalhados das antigas minas. Na Lanchester Wines, foram necessários cerca de oito poços para obter dois aproveitáveis, e a água ácida das minas chegou a corroer as placas de aço dos trocadores de calor.
O engajamento das comunidades também é desigual. Segundo Michael Smith, comunidades de antigas regiões carvoeiras costumam receber decisões prontas, sem participar da definição de preços, obras e benefícios. Para ele, uma transição energética justa exige que os moradores tenham influência real desde o início do processo.
Potencial no Reino Unido e no mundo
O Reino Unido tem cerca de 23 mil minas de carvão abandonadas, e um quarto das casas e empresas do país fica sobre antigas áreas de mineração. Um levantamento setorial de 2021 identificou 42 projetos britânicos promissores que, se desenvolvidos, poderiam gerar cerca de 4.500 empregos diretos, de 9 mil a 11 mil postos na cadeia de fornecimento e evitar a emissão de 90 mil toneladas métricas de dióxido de carbono.
Uma revisão global de 2025 encontrou 51 sistemas de energia de água de mina em operação no mundo, com capacidade combinada de 85 megawatts de aquecimento e 20 megawatts de resfriamento, além de outros 61 projetos em planejamento ou estudo. A maior parte está na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Springhill, no Canadá, opera desde 1988, e a cidade holandesa de Heerlen mantém uma rede de aquecimento e resfriamento baseada em antigas minas.
Nos Estados Unidos, milhões de pessoas vivem a menos de 1,6 quilômetro de uma mina de carvão abandonada, e o Departamento de Energia do país testa se a água represada sob antigas minas no sudoeste da Virgínia pode resfriar data centers. Na China, minas com água em alta temperatura ocorrem em 13 das 26 principais províncias produtoras de carvão, com quase três quartos do recurso estimado concentrado no norte do país.
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