Um novo tipo de dique protege cidades enquanto recria áreas úmidas

Projeto piloto nos EUA usa vegetação nativa e esgoto tratado para conter o mar e recuperar o habitat de um roedor ameaçado de extinção.

(Crédito: Charlotte Burks/Grist/Reprodução)

A cidade de Palo Alto, na Califórnia, nos EUA, testa um novo modelo de dique batizado de “dique horizontal”. A estrutura protege a costa contra o avanço do mar e ainda recupera o habitat de espécies nativas da região.

O projeto piloto fica na Reserva Natural de Palo Alto Baylands e ocupa cerca de 150 metros ao longo da orla da baía de São Francisco. Diferente dos diques tradicionais, com paredes íngremes e rochas para barrar ondas, o dique horizontal tem inclinação suave e reúne mais de 35 espécies de plantas nativas. A vegetação densa quebra as ondas do mesmo jeito que acontece numa praia natural.

Como funciona a nova estrutura

O engenheiro Mark Lindley, líder do projeto do dique vivo de Palo Alto, explica a diferença em relação à engenharia convencional. “Quando você olha para os diques ao longo da orla da baía, muitas vezes eles têm faces bem íngremes e rochas enormes na frente para protegê-los das ondas de vento. Ao ter essa inclinação suave e gradual com vegetação bem densa em vez de rocha, as ondas quebram nessa inclinação como quebram numa praia”, afirma Lindley ao Grist.

Esgoto tratado irriga a vegetação

Sob as camadas de solo e cascalho, uma tubulação liga o dique à Estação de Tratamento de Águas Residuais de Palo Alto, do outro lado da rua. A água tratada irriga as plantas do dique, e a vegetação remove nitrogênio antes que a água chegue à baía.

Segundo Samantha Engelage, engenheira sênior da Prefeitura de Palo Alto, a água da estação já atende às normas para ser liberada na baía, e a filtragem extra funciona como um benefício adicional para a qualidade da água.

Habitat para um roedor ameaçado

O projeto também busca recriar as condições de que espécies nativas do estuário precisam. Uma delas é o rato-do-pântano-salino, pequeno roedor de cor acanelada que cabe na palma da mão e sobe pela vegetação para escapar da maré alta todos os dias. A espécie está na lista de ameaçadas de extinção há décadas, por causa do avanço urbano sobre seu habitat.

A bióloga Katie Smith, especialista na espécie, descreve a fragilidade das populações locais. “Basta um par de eventos de tempestade e maré realmente muito ruins para eliminar uma população local”, diz Smith. Segundo ela, o desenho do dique de Palo Alto cria a melhor opção possível de habitat para o rato-do-pântano-salino.

Monitoramento de cinco anos e prazo de operação

O trecho restaurado corresponde a apenas parte do habitat da espécie e não oferece, sozinho, o controle de enchentes que a região precisa. Nos próximos cinco anos, pesquisadores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), de universidades e de organizações locais vão acompanhar o uso recreativo da área e medir o impacto sobre biodiversidade e qualidade da água. Segundo Engelage, os resultados podem ajudar a justificar o custo mais alto desse tipo de infraestrutura verde.

O projeto de Palo Alto levou quase uma década para sair do papel e ainda não está totalmente operacional. Engelage atribui o atraso à complexidade de conectar a tubulação da estação de tratamento ao dique. Mesmo assim, a inclinação da estrutura já funciona como uma barreira parcial contra o mar.

A urgência tem respaldo em projeção científica. Só na região da baía de São Francisco, o nível do mar deve subir entre 0,9 e 1,8 metro até 2100, e o fenômeno El Niño pode trazer, de forma temporária, cerca de 15 centímetros a mais de elevação do mar. “Daqui a 20 anos, o que vemos hoje nas marés de sizígia vai ser só uma maré alta normal. Essas áreas que vemos alagadas na maré de sizígia vão ficar alagadas todo dia”, projeta Lindley.

O modelo testado em Palo Alto já inspirou outros pontos da região. O dique horizontal de Oro Loma, perto de Hayward, foi concluído em 2017 e serviu de referência para o projeto atual. Hoje, cerca de uma dezena de iniciativas parecidas está em desenvolvimento ao redor da baía, mas o dique de Palo Alto é o primeiro ligado hidrologicamente à baía por meio do sistema de tratamento de esgoto.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.