Veja como a África troca pesticida por agroecologia
Compêndio reúne quase 90 estudos de campo e mostra controle de pragas sem química em seis países africanos.

Um compêndio do African Centre for Biodiversity reúne quase 90 estudos de campo feitos na África entre 2010 e 2025. Os dados mostram que métodos agroecológicos controlam pragas tão bem quanto pesticidas sintéticos (em vários casos).
Segundo o levantamento, estudos de campo mostram redução de pragas acima de 60% e aumento de produtividade de 50% ou mais em diferentes lavouras do continente. Os melhores resultados vêm de estratégias que atuam no sistema inteiro da fazenda, como controle biológico clássico, cultivo diversificado e manejo integrado de pragas, e não de produtos isolados que substituem o pesticida químico.
Como funciona o controle biológico no campo
O sistema “push-pull” é um dos exemplos mais citados no compêndio. No Quênia, essa técnica combina plantas que repelem pragas com plantas que as atraem para longe da lavoura principal.
O resultado, segundo o ACB, foi aumento da produtividade do milho e queda expressiva no dano causado pela erva daninha striga, pela broca-do-colmo e pela lagarta-do-cartucho. A estratégia depende do arranjo das plantas no terreno, não de insumo comprado.
Resultados em outros países africanos
Na Etiópia e em Uganda, o compêndio aponta ganhos com compostagem, rotação de cultura, plantio consorciado e controle biológico de pragas. Essas práticas fortaleceram o solo, reduziram a pressão de pragas e baixaram o custo com insumos, de acordo com o levantamento.
Em Malaui, na Tanzânia e na Zâmbia, a diversificação por consórcio de culturas, cobertura do solo com palha e uso de sementes locais melhorou a resistência das lavouras à seca e a pragas. Isso reduziu a dependência de agroquímicos comerciais.
Já na África do Sul, o manejo ecológico de pragas e a diversificação da produção sustentaram a colheita enquanto protegeram biodiversidade, água, vida do solo e saúde de trabalhadores rurais, segundo o documento.
Por que os pesticidas ainda dominam
O compêndio aponta uma falha em como a evidência científica é usada. A maior parte dos estudos comprova a eficácia das alternativas no campo, mas poucos avaliam custo, mão de obra, canal de distribuição ou adoção sustentada pelo agricultor ao longo do tempo.
Essa lacuna de dados sobre viabilidade econômica ajuda a manter o pesticida sintético como opção padrão nas políticas públicas e nos programas de extensão rural, segundo o ACB. A pesquisa também está concentrada em sistemas de milho no leste e no sul da África, com poucos estudos no oeste e no centro do continente e em culturas como hortaliças e leguminosas.
Mariam Mayet, diretora do African Centre for Biodiversity, afirma que sistemas de produção resilientes não dependem de mais uso de química. Segundo ela, esses sistemas exigem integridade ecológica, biodiversidade funcional e políticas que apoiem o agricultor a trabalhar a favor da natureza.
O compêndio recomenda investimento em validação econômica das alternativas, mudança nos programas de extensão rural e regras mais claras para o registro de insumos biológicos. Para os autores, o entrave à redução do uso de pesticidas na África não é falta de solução técnica, mas a ausência de política e financiamento que sustentem essas soluções em escala.
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