Redes de apoio estão ajudando mulheres com HIV a reconstruir a vida e enfrentar o estigma

Dados da Colômbia mostram que desigualdade de gênero, diagnóstico tardio e estigma tornam o HIV mais letal para mulheres do que para homens.

Organizações lideradas por mulheres soropositivas criaram na Colômbia redes de apoio que o sistema de saúde não oferece. Elas nasceram para responder à falta de acolhimento, informação e um lugar de escuta sem julgamento.

A Corporación Lazos de Amor, a Fundación Huellas de Arte, o coletivo La Vida en Dos e a Associação Lila Mujer reúnem mulheres que vivem com HIV na Colômbia.

A Associação Lila Mujer, por exemplo, foi fundada em 2003, na região do Pacífico, por Yaneth Valencia, diagnosticada em 1997. O coletivo La Vida en Dos foi criado por Maria Natalia Sáenz, que vive com HIV desde 1998.

As quatro organizações surgiram diante de um cenário em que mulheres são 21% das pessoas com HIV na Colômbia, mas representaram 23% das mortes por Aids em 2025, segundo a Cuenta de Alto Costo (CAC).

Diagnóstico tardio motiva a criação de redes de apoio

Grande parte das mulheres só descobre o HIV durante a gravidez ou quando o parceiro recebe o diagnóstico. Em 2025, o vírus já havia comprometido o sistema imunológico de 43% das gestantes diagnosticadas no país, aponta a CAC.

Esse atraso no diagnóstico é um dos motivos que levam as organizações a atuar diretamente com essas mulheres, oferecendo informação que o sistema de saúde não chega a oferecer a tempo.

O corpo feminino também favorece o contágio nas relações heterossexuais com penetração vaginal. “A superfície da vagina é muito maior comparada ao pequeno orifício da uretra dos homens, o que deixa uma área maior exposta ao vírus. E o homem deposita na vagina de três a cinco centímetros cúbicos de sêmen, enquanto o que uma mulher pode depositar na uretra de um homem é mínimo”, explica Mantilla. Estudos com casais em que um dos parceiros é soropositivo mostram que as mulheres têm ao menos o dobro de probabilidade de se infectar em relações heterossexuais sem proteção, na comparação com os homens, segundo a Onusida.

A desigualdade de gênero “pode aumentar as taxas de infecção e reduzir a capacidade de mulheres e meninas de enfrentar a epidemia”, afirma a ONU Mulheres. A organização aponta que elas costumam ter menos informação sobre o HIV, menos recursos para adotar medidas preventivas e mais dificuldade para negociar práticas sexuais mais seguras.

Segundo dados das Nações Unidas, uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência de parceiro em algum momento da vida. O histórico de violência aumenta em até 50% a probabilidade de infecção em regiões de alta prevalência do vírus. “Quanto menor o poder aquisitivo, menor a capacidade de negociação do uso do preservativo e maior o risco de violência”, afirma Sandra Ávila, diretora para a Colômbia da Fundação para o Atendimento Médico da Aids (AHF).

Espaços de encontro reduzem o isolamento

Maria Natalia Sáenz acompanha psicologicamente mulheres soropositivas há 28 anos. Segundo ela, o medo de que alguém descubra o diagnóstico e a exaustão de cuidar dos outros sem se sentir cuidada estão entre as principais angústias relatadas nesses encontros.

Nos grupos organizados por essas associações, mulheres recém-diagnosticadas encontram outras que vivem com o vírus há anos, têm filhos e levam uma vida saudável. A psicóloga Carolina Restrepo, autora de tese de doutorado sobre mulheres soropositivas colombianas, descreve o efeito desses espaços. “Veem que há outras mulheres às quais aconteceu o mesmo e que também não são tudo aquilo que imaginavam. Que há outras mulheres que também têm filhos, que vivem com o diagnóstico há muitos anos e que têm uma vida saudável”, afirma Restrepo ao Mutante.

Yaneth Valencia defende que uma caracterização mais precisa das mulheres soropositivas no país ajudaria a direcionar melhor esse trabalho de acolhimento. Ela quer saber com exatidão quantas são, onde estão e do que precisam, em vez de aplicar padrões internacionais que ignoram o contexto colombiano.

Novas relações a partir do diagnóstico

Para Restrepo, a experiência de passar por um grupo de apoio transforma a relação da mulher com o próprio diagnóstico. “As mulheres são umas antes do diagnóstico, outras quando o recebem, e terminam sendo outras quando se adaptam e aprendem a viver com ele”, explica a pesquisadora.

Esse processo abre espaço para novas relações sociais, afetivas e com o próprio corpo, construídas dentro dos grupos criados pelas próprias mulheres. Restrepo afirma que o prognóstico de todas as populações afetadas pelo HIV melhoraria com mais aceitação social do diagnóstico e mais conhecimento informado sobre a condição.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.