Burnout de quem supervisiona pode influenciar quem está começando a profissão

Pesquisa com 14 supervisores de clínica geral na Austrália aponta sobrecarga de ensino e falta de reconhecimento como gatilhos de burnout.

(Crédito: Unsplash)

Supervisores que orientam médicos em formação enfrentam um tipo específico de esgotamento profissional. É o que mostra um estudo qualitativo conduzido na Austrália.

A pesquisa foi assinada por Shaun Prentice, Jill Benson, Helen Mullner e Margaret Kay, ligados à The Royal Australian College of General Practitioners (RACGP) e à University of Queensland. O trabalho foi publicado na revista científica Australian Journal of General Practice.

Os autores entrevistaram 14 supervisores de clínica geral e ouviram cinco profissionais de organizações de treinamento médico em grupos focais, entre maio e julho de 2022. A coleta envolveu duas organizações de formação médica australianas, a GPEx e a GPTQ, nos estados de Austrália do Sul e Queensland. A equipe aplicou uma abordagem de teoria fundamentada e análise temática para identificar os fatores que levam ao esgotamento nesse grupo.

A sobrecarga de supervisionar se soma ao desgaste clínico

Os supervisores enfrentam os mesmos riscos de qualquer médico clínico geral, ou seja, alta carga de trabalho, estresse pessoal e uma cultura médica pouco favorável ao autocuidado. A isso se soma o que os pesquisadores chamaram de “fardo da supervisão”.

Esse fardo aparece principalmente na relação com profissionais desengajados ou resistentes a orientação. Um supervisor descreveu o efeito cumulativo desse desgaste. “Se ele não se esforça, ele te abate. Depois vem outro que te abate um pouco mais. No fim, você pensa: ‘ah, acho que são todos assim'”, relatou um dos participantes.

O impacto financeiro da supervisão também variou por estágio de carreira. Supervisores mais jovens, segundo o estudo, sentem mais o efeito de reduzir o número de pacientes atendidos para dar espaço ao ensino, já que costumam sustentar famílias mais jovens.

Cultura da prática e reconhecimento fazem diferença

A pesquisa identificou a cultura da clínica como fator central. Equipes administrativas que entendem as exigências da supervisão, e que evitam sobrecarregar a agenda do supervisor, reduzem o risco de esgotamento. A autonomia sobre horários e estilo de trabalho também pesou na percepção de controle dos participantes.

Por outro lado, o estudo aponta a falta de remuneração adequada e a sensação de desvalorização como fontes de desesperança. Apesar disso, a supervisão também trouxe sentido para os entrevistados. Um deles descreveu o ensino como uma das poucas ocasiões em que recebe reconhecimento pelo próprio trabalho.

Estratégias sugeridas pelos participantes

Os autores organizaram, a partir das entrevistas, sugestões práticas em três níveis:

  • Individual: alinhar a carga de supervisão à experiência do supervisor, reservar tempo fora da medicina e buscar apoio para lidar com perfeccionismo.
  • Da clínica: adotar supervisão em equipe, delegar tarefas administrativas e oferecer espaços de debriefing entre colegas.
  • Dos sistemas de formação: reduzir a carga de avaliação, ampliar a remuneração pela supervisão e fortalecer redes entre supervisores.

Limites do estudo

A amostra reuniu 14 supervisores selecionados entre 1.535 profissionais convidados por e-mail, dos quais 26 responderam à pesquisa inicial. A adesão voluntária, segundo os próprios autores, favorece participantes já interessados no tema, o que limita a generalização dos achados para o conjunto de supervisores australianos.

Por se tratar de estudo qualitativo, os participantes não foram questionados diretamente sobre terem vivido burnout, para reduzir o estigma associado ao tema. O comitê de ética da University of Queensland aprovou a pesquisa.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.