Consumo de ultraprocessados pelo pai eleva peso do bebê ao nascer, aponta USP
Estudo com 43 famílias de Ribeirão Preto associa consumo paterno de ultraprocessados a maior peso e dobras cutâneas do recém-nascido.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo encontraram relação direta entre o consumo paterno de alimentos ultraprocessados e o peso do recém-nascido. O achado partiu de 43 famílias acompanhadas em Ribeirão Preto, no interior paulista.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, com participação da Universidade de Ribeirão Preto, entre 2018 e 2021. O estudo acompanhou pais, mães grávidas com sobrepeso e seus bebês, todos vinculados a um ensaio clínico maior sobre nutrição na gravidez. A dieta dos pais foi avaliada por dois recordatórios alimentares de 24 horas, aplicados por nutricionistas treinados. Em média, os alimentos ultraprocessados representaram 30% das calorias consumidas pelos pais.
O que o estudo encontrou
Quanto maior a proporção de ultraprocessados na dieta paterna, maior o peso do bebê ao nascer. Cada aumento de 10 pontos percentuais nesse tipo de alimento elevou o peso do recém-nascido em cerca de 128 gramas, segundo os cálculos da equipe.
O mesmo padrão apareceu no índice ponderal ao nascer, medida que relaciona peso e comprimento do bebê. As dobras cutâneas da região suprailíaca e da coxa também cresceram junto com o consumo paterno de ultraprocessados.
Por outro lado, a pesquisa não encontrou relação entre a dieta do pai e a quantidade de gordura corporal estimada no bebê. Os pesquisadores calcularam esse dado por uma fórmula que usa peso, comprimento e dobras cutâneas do recém-nascido.
Do lado da mãe, o efeito foi inverso
Entre as gestantes do mesmo grupo, o consumo de ultraprocessados no início da gravidez teve efeito oposto. Quanto maior a ingestão materna desses alimentos até a 16ª semana de gestação, menor o peso, o comprimento e o perímetro cefálico do bebê ao nascer.
Os pesquisadores não encontraram relação entre o quanto o pai e a mãe consumiam de ultraprocessados dentro da mesma casa. Isso sugere que os dois efeitos, embora opostos, acontecem por caminhos biológicos distintos.
Por que a dieta do pai pode importar
A hipótese da equipe é que a alimentação paterna afeta o bebê por mecanismos epigenéticos, alterações químicas no DNA do espermatozoide que não mudam a sequência genética, mas influenciam como os genes se expressam. Um gene citado no estudo (o IGF-II) atua no crescimento fetal e é herdado apenas pela via paterna.
Estudos anteriores já haviam associado dieta rica em gordura saturada e açúcar a essas alterações no sêmen. Ainda assim, a maior parte das evidências vinha de pesquisas com animais, não com humanos.
Limites que pedem cautela
A amostra de 43 famílias é pequena, e a coleta de dados foi interrompida por sete meses durante a pandemia de covid-19. Muitos pais recusaram participar por falta de tempo ou interesse, o que reduziu ainda mais o grupo estudado.
Os pesquisadores também usaram a dieta relatada durante a gravidez da parceira como uma estimativa da alimentação do pai antes da concepção, já que a coleta no período pré-concepcional não foi possível na maioria dos casos. O estudo, publicado na Nutrition Research, é observacional e não prova causa e efeito. A equipe defende novas pesquisas, com amostras maiores, para confirmar o achado antes de qualquer recomendação prática para casais que planejam engravidar.
Imagine receber conteúdos como este todas as semanas, já adaptados ao seu veículo e prontos para publicação.
Quero testar o Pautas ExtrasSobre o Autor