Achar alguém engraçado pode ser fruto da nossa evolução, sugere estudo

Estudo propõe que o humor, e não só a força ou a simpatia, moldaram a evolução da linguagem humana.

(Crédito: OurWhisky Foundation)

A linguista Ljiljana Progovac, da Wayne State University, nos Estados Unidos, propõe que o senso de humor moldou a evolução da linguagem humana. O artigo saiu na revista PNAS Nexus.

Publicado como artigo de perspectiva teórica, o texto argumenta que a chamada “sobrevivência do mais apto”, associada a Charles Darwin, e a mais recente “sobrevivência do mais amigável” não bastam para explicar a linguagem humana.

Progovac soma a terceira força, a da “sobrevivência do mais espirituoso”. Segundo a autora, assim que os primeiros humanos conseguiram combinar duas palavras, ganharam uma ferramenta para insultar um rival ou conquistar um parceiro sem recorrer à violência física.

Palavras que sobrevivem como fósseis do primeiro humor

Progovac chama de “fósseis linguísticos” um tipo de palavra composta que sobrevive em várias línguas desde os primeiros estágios da gramática. Ela junta um verbo e um substantivo em uma única palavra, como o inglês killjoy (algo como “estraga-prazeres”) e pickpocket (“bate-carteira”). Em espanhol, o mesmo padrão aparece em aguafiestas (“desmancha-prazeres”), chupamedias (“lambe-botas”), matasanos (“charlatão”), metomentodo (“intrometido”) e buscavidas (“traficante”).

Essas construções costumam ser engraçadas, um tanto grosseiras e efêmeras, pois muitas caem em desuso de uma geração para outra. É como um apelido de infância, curto e visual, que gruda na memória mesmo décadas depois.

Exames de imagem cerebral mostram que essas palavras ativam o giro fusiforme com mais força do que suas equivalentes neutras, uma região do cérebro ligada ao reconhecimento de rostos e ao pensamento em metáforas.

Um experimento de ressonância já testou a ideia

Um estudo anterior de Progovac e colegas, de 2018, usou ressonância magnética funcional para comparar essas palavras compostas com versões mais complexas do mesmo significado, como joy-kill-er (“matador de alegria”) e whistle-blow-er (“denunciante”) no lugar de kill-joy (“estraga-prazeres”) e cry-baby (“bebê chorão”).

As formas mais simples e antigas ativaram com mais intensidade o giro temporal inferior e uma área do lado direito do cérebro conhecida como área 37 de Brodmann. Essa mesma região também participa do reconhecimento facial, o que sugere uma ligação entre nomear rostos e nomear pessoas com apelidos engraçados.

Fazer rir substituiu brigar

A hipótese central do artigo é que, assim que a fala permitiu combinar palavras, os humanos ganharam uma forma de competir sem briga física, como debochar de um rival ou fazer uma pretendente rir.

Em sociedades de tradição oral citadas no estudo, os falantes mais habilidosos costumam ocupar posições de maior status, como entre os maori da Nova Zelândia, para quem a oratória é a principal via de acesso ao poder, e entre o povo mursi, na Etiópia, onde o atributo mais citado de um homem influente é sua capacidade de falar bem em público.

O naturalista Charles Darwin já havia notado essa força em “A Descendência do Homem”. “Nunca se poderia ter previsto que o poder de encantar a fêmea seria, em alguns poucos casos, mais importante que o poder de vencer outros machos em batalha”, disse.

Uma análise de 3.745 anúncios de encontros, feita em 2010 pelo pesquisador C. Nicholson e citada no estudo, mostrou que mulheres buscam parceiros que as façam rir com o dobro da frequência com que se oferecem para retribuir o favor. Outro experimento, de Vrticka e colegas, encontrou maior ativação cerebral em mulheres do que em homens ao perceberem humor.

O que já foi provado e o que ainda é hipótese

O artigo de Progovac é classificado pela própria revista como um texto de perspectiva teórica, não como um experimento novo. A autora reúne evidências já publicadas de linguística, neuroimagem e biologia evolutiva para montar o argumento, mas reconhece que testar a hipótese inteira com participantes humanos é difícil.

Três pontos, porém, já têm apoio concreto e podem ser contestados por outros pesquisadores, como o padrão das palavras compostas (encontrado em línguas sem parentesco entre si), os exames de ressonância de 2018 e os dados sobre preferência de parceiro. É essa parte testável que separa a proposta de uma simples ideia curiosa sobre humor e evolução.

Imagine receber conteúdos como este todas as semanas, já adaptados ao seu veículo e prontos para publicação.

Quero testar o Pautas Extras

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.