Cientistas descobrem por que a solidão faz alguns beberem mais álcool que outros

Estudo com camundongos revela circuito cerebral que liga solidão ao consumo de álcool, com efeitos opostos entre machos e fêmeas.

(Crédito: Engin Akyurt/Pexels)

Isolamento social ativa um circuito cerebral que aumenta o consumo de álcool em camundongos machos e reduz em fêmeas. O achado aponta um alvo biológico para tratar o abuso de álcool ligado à solidão.

A descoberta é de uma equipe da Universidade Northwestern e do Instituto Salk de Estudos Biológicos, dos Estados Unidos. Os cientistas isolaram camundongos adultos por 11 dias e compararam o consumo de álcool desses animais ao de camundongos que continuaram vivendo em grupo.

Os machos isolados aumentaram progressivamente a ingestão de uma solução com 15% de álcool ao longo dos dias, com pico após cerca de uma semana. As fêmeas isoladas fizeram o caminho inverso e reduziram o consumo. O consumo de água não variou entre os machos e foi maior nas fêmeas, independentemente do isolamento.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, citada no estudo, o transtorno por uso de álcool é o mais comum ligado a substâncias no mundo e afeta cerca de 7% da população global acima de 15 anos. O isolamento social vem crescendo e já é considerado um fator de risco relevante para o problema.

Circuito muda de direção conforme o sexo

A amígdala basolateral, região que processa emoção e sinais de estresse, projeta neurônios para o córtex pré-frontal medial, área que comanda a tomada de decisão. Usando eletrofisiologia, os pesquisadores mediram a atividade dessa via depois de 14 dias de isolamento e encontraram um padrão oposto entre os sexos.

Nos machos, o isolamento deixou os neurônios dessa via mais excitáveis, acompanhando o aumento no consumo de álcool. Nas fêmeas, o efeito foi o inverso. A via ficou menos ativa, no mesmo sentido da queda no consumo observada nesse grupo.

“Este é o primeiro estudo a identificar um circuito cerebral específico que explica como o isolamento social pode aumentar o uso de álcool em machos, um avanço importante para a área”, disse a primeira autora do estudo, Reesha Patel, professora assistente de psiquiatria geral e neurociência da Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern ao EurekaAlert. O estudo saiu na revista científica Nature Neuroscience.

Atividade cerebral prevê o consumo de álcool

Imagens de cálcio em alta resolução mostraram que a atividade dos neurônios dessa via antecipa o comportamento de beber nos machos. Um algoritmo treinado com esses dados também identificou, pela atividade neural, se o animal estava bebendo álcool ou água.

A precisão foi maior quando o algoritmo usava a atividade da via entre a amígdala e o córtex pré-frontal, em vez de neurônios sem essa conexão direta. Quanto maior a resposta desses neurônios ao álcool, maior era o número de vezes que o animal voltava a beber, segundo a correlação que os cientistas encontraram.

Ligar e desligar o circuito muda o comportamento

Para confirmar que a via causa o aumento do consumo, e não apenas o acompanha, a equipe usou optogenética, técnica que liga ou desliga circuitos cerebrais com pulsos de luz. Ativar essa via em machos que sempre viveram em grupo fez o cérebro deles reagir ao álcool como se os animais estivessem isolados.

O efeito inverso também apareceu. Quando os cientistas desligaram a mesma via em camundongos isolados, o consumo de álcool caiu. A estimulação prolongou a duração de cada episódio de bebida, sem alterar o interesse dos animais por água ou por uma solução doce de sacarose.

Hierarquia social também pesa no consumo

A posição de cada camundongo no grupo social influencia o quanto ele bebe, mesmo antes do isolamento. Animais subordinados consumiram mais álcool do que os dominantes, e machos de posição mais baixa também apresentaram maior atividade na via entre a amígdala e o córtex pré-frontal.

“Nosso trabalho mostra que uma via definida fica hiperativa durante o isolamento e aumenta diretamente o consumo de álcool, e que machos e fêmeas recorrem a estratégias neurais diferentes quando estão sozinhos”, disse Patel. “Isso pode ajudar a explicar diferenças de longa data entre os sexos em transtornos neuropsiquiátricos.”

O que o achado prova (e o que ainda falta provar)

Os cientistas fizeram o experimento inteiramente em camundongos, sob condições controladas de laboratório, com grupos de até 14 animais por sexo. A equipe ainda não sabe por que o isolamento afeta machos e fêmeas de forma oposta, nem se hormônios ou diferenças na estrutura do próprio circuito explicam essa divergência.

A equipe listou quatro prioridades para as próximas etapas da pesquisa:

  • Descobrir o que mantém a via entre a amígdala e o córtex pré-frontal hiperativa durante o isolamento.
  • Investigar a participação de outras regiões cerebrais além do córtex pré-frontal no processo.
  • Testar se hormônios explicam a diferença de resposta entre machos e fêmeas.
  • Verificar se o mesmo mecanismo ocorre em humanos.

Imagine receber conteúdos como este todas as semanas, já adaptados ao seu veículo e prontos para publicação.

Quero testar o Pautas Extras

Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.