Pesquisa aponta que QI influencia escolha de embriões
Pesquisa revela que baixo QI pesa quase tanto quanto doença cardíaca na hora de escolher um embrião.

Um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, revela que a maioria das pessoas usaria o QI de um embrião para decidir se o implanta. A pesquisa ouviu quase 2.100 adultos nos Estados Unidos e na China.
Uma equipe liderada por Edmond Awad conduziu o estudo, publicado na revista Nature Human Behaviour. Os pesquisadores ouviram 1.467 adultos dos Estados Unidos e 623 da China sobre testes genéticos em embriões antes da fertilização in vitro.
Os participantes avaliaram quatro características: duas doenças (problema cardíaco e deficiência visual), e dois traços não médicos (QI baixo e tendência a comportamento antissocial). Mais da metade disse estar disposta a testar embriões mesmo para os traços não médicos, um resultado que contrariou a expectativa inicial dos próprios pesquisadores.
Diante de um dilema real de escolha entre dois embriões, os participantes usaram a informação sobre QI e comportamento quase da mesma forma que usariam dados sobre doenças.
Como o experimento foi feito
Os pesquisadores montaram cenários fictícios de fertilização in vitro com dois embriões disponíveis para implantação. Cada embrião recebia uma chance cinco pontos percentuais acima ou abaixo da média para uma das quatro características, e os participantes escolhiam qual implantar sem saber por que aquele teste específico havia sido feito.
“Originalmente, o diagnóstico genético pré-implantacional foi desenvolvido para identificar doenças genéticas graves. Hoje, porém, também é usado para calcular escores de risco poligênico para doenças como diabetes e problemas cardíacos e, em alguns casos, até para características não relacionadas a doenças, como sexo, cor dos olhos e capacidades cognitivas”, afirma a equipe de Edmond Awad, da Universidade de Oxford, ao Wissenschaft.
Quanto cada traço pesa na decisão
Entre os participantes dos Estados Unidos, a chance de um embrião ser escolhido caiu proporcionalmente ao risco de cada característica:
- Doença cardíaca: 40 pontos percentuais a menos de chance de escolha.
- Comportamento antissocial: 36 pontos percentuais a menos.
- QI baixo: 32 pontos percentuais a menos.
- Deficiência visual: 19 pontos percentuais a menos.
O padrão se repetiu entre os participantes chineses, com peso ainda maior para o QI baixo nesse grupo. Na pergunta direta sobre disposição para testar, a aprovação variou de 79% para doença cardíaca a 55% para deficiência visual, com QI baixo em 65% e comportamento antissocial em 58%.
A distância entre o discurso e a decisão real
Apenas 18% dos participantes classificaram o teste de traços não médicos como moralmente errado, e 18,1% defenderam proibição legal, uma minoria em ambos os casos. Mesmo assim, na hora de escolher entre dois embriões, esses mesmos traços pesaram quase tanto quanto uma doença.
“Nossos resultados sugerem que as pessoas não pensam nessas categorias quando estão diante de uma decisão”, afirma Julian Savulescu, colega de Awad na Universidade de Oxford. “Se a política pretende levar em conta o que realmente importa para as pessoas, ela precisa abordar o efeito de uma condição ou característica sobre a vida da criança, e não o rótulo associado a ela.”
Dominic Wilkinson, também da equipe, recomenda que futuros pais pensem menos no que gostariam de saber e mais em quais informações realmente mudariam sua decisão sobre o embrião. Os autores chamam essa estratégia de ignorância deliberada, um fenômeno psicológico documentado que ajuda a equilibrar o desejo por um filho com determinadas características e a preocupação ética envolvida em escolhê-lo dessa forma.
Os limites da promessa genética
A capacidade de prever traços como QI a partir de exames genéticos ainda é bem mais limitada do que os cenários hipotéticos da pesquisa sugerem. Os próprios autores alertam que o benefício prático de selecionar embriões por esse tipo de característica é pequeno na prática atual e pode até gerar frustração, caso o filho escolhido pelo QI não corresponda à expectativa dos pais.
O risco de uma sociedade dividida por testes genéticos
A distinção regulatória entre traços médicos e não médicos, usada em boa parte das políticas sobre fertilização in vitro ao redor do mundo, não reflete como as pessoas decidem na prática, segundo os pesquisadores. Quando um teste é oferecido de forma rotineira, sem explicar seu real poder preditivo, a simples assinatura de um termo de consentimento pode não representar uma escolha verdadeiramente informada.
“Embora essas técnicas permitam aos futuros pais melhorar os resultados de saúde de seus filhos, elas também abrem a possibilidade de selecionar embriões com base em características que vão além da saúde, como a inteligência, o que evoca o fantasma de práticas eugênicas históricas”, escrevem Awad e sua equipe.
Imagine receber conteúdos como este todas as semanas, já adaptados ao seu veículo e prontos para publicação.
Quero testar o Pautas ExtrasSobre o Autor