Médicos retiram brinquedo preso no pulmão há 51 anos

Um copo de brinquedo Barbie aspirado aos 8 anos ficou preso nos brônquios, e médicos trataram o caso como DPOC.

Copo da Matel Barbie fabricado em 1970 não aparecia em radiografias da mulher. (Crédito: Case Reports in Pulmonology)

Uma mulher de 59 anos guardou, sem saber, um copo de brinquedo Barbie preso nos brônquios por 51 anos. Médicos atribuíram os sintomas respiratórios a DPOC por décadas, até uma broncoscopia revelar a causa real.

Pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC) e do BC Cancer, no Canadá, descreveram o caso em artigo publicado na Case Reports in Pulmonology. Os médicos encaminharam a paciente, de 59 anos, ao serviço de respirologia para investigar uma possível lesão no lobo inferior direito do pulmão. Ela teve pneumonias recorrentes ao longo de oito anos, com radiografias que mostravam ora consolidação, ora colapso parcial daquela região.

A paciente fumou o equivalente a um maço de cigarros por dia durante oito anos e parou 31 anos antes da avaliação, histórico que levou os médicos a suspeitar de DPOC, a doença pulmonar obstrutiva crônica. Uma tomografia revelou obstrução completa de dois brônquios basais do pulmão direito e os médicos chegaram a encaminhar a paciente para investigar um possível câncer de pulmão.

Copo de brinquedo Barbie ficou preso nos brônquios por 51 anos

A paciente relembrou, na consulta, ter aspirado um pequeno copo plástico de um kit de jantar da boneca Barbie aos 8 anos de idade. Segundo o artigo, os primeiros sintomas respiratórios surgiram logo depois desse episódio, que ela relatou aos médicos ainda na infância e repetiu por diversas vezes na vida adulta.

O objeto nunca apareceu nas radiografias porque plástico é radiotransparente, invisível nesse tipo de exame. Por isso, os médicos concluíram, de forma equivocada, que a própria tosse havia eliminado a peça.

Diante da persistência dos sintomas mais de 50 anos depois, a equipe de respirologia realizou uma broncoscopia flexível, exame que insere uma câmera fina pelo nariz ou pela boca para observar as vias aéreas. O procedimento mostrou o copo obstruindo completamente dois brônquios basais do pulmão direito, identificados como RB9 e RB10.

Os médicos retiraram o objeto com pinça e cesto na própria broncoscopia. Biópsias do tecido ao redor mostraram apenas tecido de granulação, uma reação inflamatória crônica, sem sinal de câncer.

Depois da retirada, os pesquisadores compararam a peça a um copo de kit de jantar da Barbie fabricado pela Mattel na década de 1970, com bordas e formato idênticos, o que confirmou a origem do objeto.

Brônquios ficaram estreitados mesmo após a retirada do objeto

Uma nova broncoscopia, feita seis semanas após a remoção, mostrou melhora no tecido de granulação, mas os brônquios RB9 e RB10 permaneceram bastante estreitados. Uma tomografia dois meses depois indicou redução da consolidação pulmonar, ainda com bronquiectasia residual e perda de volume na região.

Nove meses após a retirada, uma nova tomografia mostrou o quadro estável, porém com bronquiectasia, cicatrizes e perda de volume ainda presentes no pulmão direito. Apesar disso, a paciente não relatou nenhum sintoma respiratório no acompanhamento, e os médicos adiaram uma possível intervenção cirúrgica, como a dilatação da via aérea.

Viés de diagnóstico atrasou a descoberta por décadas

Segundo os autores, este é o caso de corpo estranho retido nas vias aéreas mais longo já documentado na literatura médica, com 51 anos entre a aspiração e a retirada. Eles apontam quatro fatores que atrasaram o diagnóstico:

  • O histórico de tabagismo, que ancorou os médicos à hipótese de DPOC.
  • O material radiotransparente do objeto, invisível nos exames de imagem.
  • A aspiração ter ocorrido na infância, com complicações que só pioraram décadas depois.
  • Um viés de diagnóstico ligado ao gênero da paciente.

Os mesmos autores afirmam que os médicos minimizaram os sintomas da paciente mesmo diante do relato claro sobre o episódio de aspiração, e nunca a encaminharam para uma investigação definitiva. Eles citam estudos que mostram mulheres com mais chance de receber diagnóstico tardio ou equivocado do que homens em diferentes doenças respiratórias e não respiratórias.

Corpo estranho nas vias aéreas nem sempre aparece no raio-x

De acordo com o artigo, apenas entre 21% e 32% dos corpos estranhos aparecem nas radiografias de tórax, porque a maioria é radiotransparente. O diagnóstico costuma depender de sinais indiretos, como atelectasia ou consolidação, principalmente no lobo inferior direito em adultos.

O brônquio principal direito é mais largo e mais vertical do que o esquerdo na altura da carina, a bifurcação da traqueia. Essa anatomia faz com que de 60% a 70% dos objetos aspirados por adultos fiquem alojados do lado direito do pulmão.

Os sintomas de aspiração de corpo estranho variam bastante entre os pacientes, segundo o levantamento citado no artigo:

  • Tosse, em 59% a 94% dos casos.
  • Sibilância (ou chiado no peito) em 22% dos casos.
  • Falta de ar, em 13% a 41% dos casos.
  • Febre, em 18% a 23% dos casos.
  • Tosse com sangue, em 10% a 23% dos casos.

Os autores destacam ainda que nem todo paciente lembra do momento da aspiração. A taxa de recordação do episódio varia de 50% a 90% e cai para até 30% entre idosos, o que reforça a importância de considerar broncoscopia diante de pneumonias recorrentes sem explicação.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.