Este planeta pode ter um amanhecer que dura anos inteiros
Órbita extrema faz gigante gasoso a 190 anos-luz da Terra ter ciclos de luz que podem se estender por semanas ou anos.

O exoplaneta HD 80606 b, localizado a 190 anos-luz da Terra, pode ter amanheceres que duram semanas ou anos. A causa é a órbita extremamente excêntrica do planeta, que impede o bloqueio total por maré.
HD 80606 b é um planeta gigante gasoso que orbita sua estrela a cada 111 dias. Nesse intervalo, ele chega a passar a menos de 4,5 milhões de quilômetros da superfície estelar, distância muito menor que os 149,6 milhões de quilômetros que separam a Terra do Sol, em média. Essa proximidade extrema faz parte de uma órbita tão alongada que costuma ser comparada à trajetória de um cometa.
A cada aproximação, o planeta recebe centenas de vezes mais energia da estrela do que quando está na parte mais distante de sua trajetória. O resultado é uma atmosfera submetida a variações de temperatura que podem chegar a várias centenas de graus em poucas horas.
Maré gravitacional quase trava a rotação do planeta
De acordo com Carlos Vázquez Monzón, professor assistente Doutor, especializado em Astrofísica e Astrodinâmica da Loyola University Andaluzia, na Espanha, a gravidade da estrela freia a rotação de planetas gigantes que orbitam muito perto dela. Esse processo, chamado de acoplamento por maré, costuma sincronizar o período de rotação com o período orbital.
Quando isso acontece, o planeta passa a mostrar sempre a mesma face à estrela, como a Lua faz com a Terra. Uma metade viveria um dia permanente e a outra, uma noite sem fim.
HD 80606 b parece ter escapado desse desfecho. As marés reduziram sua velocidade de rotação, mas a excentricidade da órbita provavelmente impediu o bloqueio completo.

Órbita alongada aproxima o planeta da estrela em alta velocidade
A trajetória de HD 80606 b é uma das mais alongadas já registradas entre exoplanetas conhecidos. Durante boa parte do ano, o planeta permanece distante da estrela.
Na aproximação máxima, porém, ele acelera e passa perto o suficiente para ser esticado e comprimido pela gravidade estelar, o que libera calor e altera aos poucos sua rotação. Essa variação extrema de energia dificulta a sincronização perfeita entre rotação e translação.
Modelos de astrofísica indicam que o planeta pode estar em rotação pseudo-síncrona, ou seja, gira devagar, influenciado pelas marés, sem ficar completamente imobilizado em relação à estrela. Os ventos atmosféricos, nesse cenário, poderiam alcançar vários quilômetros por segundo ao tentar redistribuir o calor recebido durante a passagem mais próxima da estrela.
Amanhecer poderia se estender por dias, semanas ou anos
Ninguém observou diretamente o ciclo entre dia e noite em HD 80606 b, mas a física permite estimar como ele seria. Como o planeta é um gigante gasoso, não existe superfície sólida para um observador pisar.
Ainda assim, um observador hipotético flutuando em alguma camada estável da atmosfera veria uma estrela muito mais brilhante do que o Sol visto da Terra, avançando lentamente pelo céu. Dependendo da velocidade exata de rotação e da geometria da órbita, o amanhecer e o entardecer poderiam se prolongar por dias, semanas ou até anos.
O meio-dia também seria ambíguo. Em certos momentos, a combinação entre rotação e velocidade orbital poderia fazer a estrela parecer parar no céu ou até inverter temporariamente seu movimento aparente, antes de voltar a se deslocar depressa quando o planeta cruzasse o trecho mais extremo da órbita.
Duração do dia varia enormemente entre os planetas conhecidos
O tempo que um planeta leva para girar sobre si mesmo muda radicalmente de um mundo para outro. No Sistema Solar, Júpiter completa uma volta em cerca de 10 horas, a Terra em 24 horas e Vênus em 243 dias terrestres.
Entre os exoplanetas, esse intervalo se torna ainda mais amplo. Muitos mundos que orbitam estrelas pequenas podem estar completamente bloqueados por maré. Outros, como HD 80606 b, parecem viver um estado intermediário, em que o dia existe, mas passa em um ritmo extraordinariamente lento.
Em alguns casos, os sóis desses planetas levam meses ou até anos para completar o percurso pelo céu. Isso mostra que noções que parecem universais, como um dia ou uma noite, são apenas circunstâncias astronômicas específicas de cada planeta.
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