Um inseto de 24 patas ajuda a explicar como a vida saiu da água

Fóssil achado nos EUA e reanalisado por cientistas chineses muda a visão sobre a transição dos animais da água para a terra.

O fóssil tem sinais reveladores de sua vida na água antes de se mudar para a terra. (Crédito: Xinhua)

Um fóssil de 324 milhões de anos encontrado no estado do Texas, nos Estados Unidos, revela um inseto com 24 patas. A descoberta indica uma etapa da transição entre a vida aquática e a vida terrestre.

O Instituto de Geologia e Paleontologia de Nanjing, da Academia Chinesa de Ciências, conduziu a pesquisa em parceria com cientistas do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Espanha. Cientistas haviam classificado o fóssil (batizado de Chosha praecursor) como um tipo de crustáceo, por causa de apêndices abdominais segmentados semelhantes aos do grupo.

Uma nova análise, publicada na Nature, feita com luz cross-polarizada, uma técnica óptica que revela detalhes da rocha invisíveis à luz comum, mudou essa interpretação. Os pesquisadores identificaram três segmentos torácicos distintos e três pares de patas, o mesmo plano corporal dos insetos atuais.

O animal também tinha outros nove pares de apêndices no abdômen, usados para nadar, o que soma 24 patas ao todo. O espécime é uma fêmea adulta, com 3,2 cm de comprimento, ou cerca de 5 cm com a cauda estendida.

Da água para a terra

Segundo a equipe, o Texas, onde os pesquisadores encontraram o fóssil, era uma região de encontro entre água e terra. Essa faixa de transição de habitat teve papel direto na evolução do inseto.

“Essa descoberta funciona como uma ponte evolutiva entre formas de vida aquáticas e terrestres”, afirma Cai Chenyang, do Instituto de Geologia e Paleontologia de Nanjing à New Atlas. “Há cerca de 320 milhões de anos, insetos antigos na interface entre água e terra evoluíam progressivamente novas estruturas corporais adequadas para respirar e se mover em terra firme.”

Com o tempo, o grupo passou a viver fora da água. O inseto perdeu os nove pares de apêndices abdominais ao longo de gerações, até restarem apenas as seis patas que caracterizam os insetos até hoje.

O que já foi demonstrado e o que ainda é hipótese

A reanálise do fóssil demonstrou a presença simultânea de patas terrestres e apêndices aquáticos em um único animal, o que evidencia a fase de transição. O motivo exato que levou a esse processo evolutivo, porém, ainda não tem resposta única.

Os pesquisadores apontam possíveis fatores, sem indicar qual predominou, incluindo variação na temperatura e no nível de oxigênio da água, escassez de recursos no ambiente aquático e disputa por um novo nicho ecológico, ainda livre de predadores e concorrentes.

Por que as seis patas venceram na evolução

O plano corporal de seis patas que surgiu nesse processo se tornou uma configuração amplamente bem-sucedida na evolução dos animais. Os insetos formam hoje o grupo de animais mais numeroso do planeta.

A transição da vida para a terra firme não seguiu um único caminho nem um único cronograma. Os vertebrados fizeram esse movimento há cerca de 385 milhões de anos, durante o período Devoniano. Os invertebrados, grupo ao qual pertencem os insetos, saíram da água cerca de 50 milhões de anos antes dos peixes.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.