Tigre-da-tasmânia foi caçado até a extinção por um crime que talvez não tenha cometido
Estudo do crânio do extinto tigre-da-tasmânia questiona sua fama de predador de ovelhas e aponta caça a presas bem menores.

Uma nova análise do crânio do tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus) contradiz a fama do animal como caçador de ovelhas. O estudo indica que o predador extinto era especializado em presas bem menores.
Pesquisadores da Universidade Flinders, da Universidade de Melbourne e do Museu Australiano publicaram a análise no periódico científico Nature Communications. A equipe comparou o crânio do tigre-da-tasmânia com o de 59 outras espécies de mamíferos carnívoros, em um conjunto de 225 espécimes de 14 famílias. O animal, também chamado de lobo-da-tasmânia, foi extinto em 1936, quando o último exemplar conhecido morreu no zoológico de Hobart, na Austrália.
Colonizadores europeus temiam que o predador atacasse rebanhos de ovelhas e chegaram a receber recompensa do governo para caçá-lo. O nome científico da espécie (cynocephalus) significa cabeça de cão, referência à semelhança externa com lobos e raposas.
Crânio grande demais para o peso do animal
O crânio do tigre-da-tasmânia era muito maior do que se esperaria para seu peso corporal, segundo o estudo. O animal pesava cerca de 17 quilos, com variação de 10% para mais ou para menos. Ainda assim, o tamanho do crânio correspondia ao esperado para mamíferos entre 24,5 e 66,7 quilos, peso semelhante ao de predadores como o lobo-cinzento e o leopardo.
Os canídeos com formato de crânio mais parecido ao do tigre-da-tasmânia (como chacais e raposas) pesam entre 6 e 14 quilos. A desproporção chamou a atenção da equipe liderada por Vera Weisbecker, da Universidade Flinders, na Austrália.
Focinho longo e alto indica mordida rápida
O focinho comprido e alto do tigre-da-tasmânia indicava uma mordida rápida e potente, segundo os pesquisadores. A região dos caninos também era alargada, e essa combinação de traços não aparece em nenhum outro carnívoro vivo analisado pela equipe.
“Quanto mais longo o maxilar, mais rápido se move sua ponta ao morder”, explica Vera Weisbecker, líder do estudo na Universidade Flinders ao Spektrum. “Achamos que o tamanho enorme do crânio do tigre-da-tasmânia permitia que ele suportasse essas forças de mordida.”
Essa anatomia favorecia mordidas rápidas e potentes contra presas pequenas ou médias, como os bandicoots, marsupiais do tamanho de um coelho. Segundo os pesquisadores, o formato do crânio não era adequado para conter animais grandes e capazes de reagir, como ovelhas.
Parente mais parecido tem hábitos alimentares diferentes
O parente vivo mais parecido em forma e tamanho de crânio com o tigre-da-tasmânia é o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), da América do Sul, cerca de 50% maior que o extinto marsupial. O lobo-guará, porém, se alimenta majoritariamente de roedores e frutas, o que reduz seu valor como comparação para hábitos de caça.
Outro caso é o lobo-etíope (Canis simensis), que tem porte semelhante e também caça presas pequenas e rápidas, como roedores e lebres. Ainda assim, seu crânio não tem a altura nem o tamanho relativo observados no tigre-da-tasmânia.
Perseguição ao animal não tinha base real, aponta estudo
A perseguição ao tigre-da-tasmânia não tinha base real, segundo os pesquisadores. Durante décadas, a espécie foi tratada como ameaça aos rebanhos de ovelhas e acabou extinta em pouco mais de um século de colonização britânica.
Os autores reconhecem que não é possível confirmar diretamente o comportamento de mordida do tigre-da-tasmânia, já que a espécie está extinta. Estudos genômicos futuros podem ajudar a entender como o crânio do animal evoluiu. Por ora, o tigre-da-tasmânia não tem equivalente funcional entre os mamíferos vivos incluídos na pesquisa.
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