Crocodilo gigante de 7 metros dominava antigo lago sul-americano
Marcas de mordida em fósseis do Mioceno colombiano apontam Purussaurus neivensis, réptil de sete metros, como predador dominante da região.

Pesquisadores identificaram marcas de mordida de crocodilianos gigantes em fósseis de herbívoros do Mioceno colombiano. As marcas apontam Purussaurus neivensis, um réptil de sete metros, como o predador dominante da região há 12 milhões de anos.
O Journal of Vertebrate Paleontology publicou o estudo. A equipe de pesquisadores analisou quatro fósseis do sítio de La Venta, no deserto de La Tatacoa, no departamento de Huila. Os fósseis pertencem a três espécies de mamíferos herbívoros de grande porte: o notoungulado Pericotoxodon platignathus e os astrapotérios Xenastrapotherium kraglievichi e Granastrapotherium snorki, que chegavam a pesar mais de 1,6 tonelada.
Os pesquisadores encontraram perfurações, sulcos e fraturas nos ossos, marcas que os dentes de um predador deixam ao atacar ou devorar a presa. O tamanho, o formato e a profundidade das marcas coincidem com os dentes de Purussaurus neivensis, o maior crocodiliano identificado no sítio.
Marcas de mordida revelam ataques a herbívoros gigantes
Os autores analisaram um crânio e um fêmur de Pericotoxodon platignathus, além de duas mandíbulas, uma de Xenastrapotherium kraglievichi e outra de Granastrapotherium snorki. O crânio, guardado no Museo Paleontológico de Villavieja, tem uma perfuração circular de 29,2 milímetros de diâmetro no topo da cabeça e um sulco alongado sobre o osso nasal. Pericotoxodon platignathus, dono desse crânio, pesava quase uma tonelada segundo as estimativas dos autores.
As marcas seguem um padrão conhecido na paleontologia, incluindo perfurações redondas que os dentes produzem na mordida, sulcos que aparecem quando o dente arrasta sobre o osso e fraturas causadas pela pressão da mordida. Os pesquisadores deram um nome próprio a cada tipo de marca, como Nihilichnus para as perfurações e Linichnus para os sulcos.
Purussaurus, o crocodiliano de sete metros
Purussaurus neivensis foi o maior crocodiliano do sítio de La Venta, com cerca de sete metros de comprimento e quase 1.800 quilos, parente das espécies atuais de jacaré. A soma da força das mordidas encontradas nos fósseis passa de 40 mil newtons e chega perto de 70 mil newtons em alguns casos, valor próximo ao estimado para os dentes desse crocodiliano em estudos anteriores.
Um crocodilo-de-água-salgada adulto morde com força média de 16 mil newtons e força máxima de cerca de 34 mil newtons. Purussaurus neivensis superava essa capacidade, do mesmo jeito que hoje um jacaré-do-pantanal aplica pressão bem menor sobre suas presas.
“Havia tantas presas disponíveis que os predadores mamíferos não conseguiriam devorá-las todas”, afirma Oscar Wilson, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Helsinque, à Agência SINC. “Nosso estudo demonstra que os crocodilianos eram os predadores mais importantes da região, especialmente na caça de presas de grande porte”, complementa.
Por que os répteis dominavam antes da chegada dos grandes mamíferos carnívoros
Na América do Sul do Mioceno, os grandes carnívoros mamíferos ainda não existiam. O continente estava isolado e o posto de predador de topo era dividido entre marsupiais com dentes de sabre, aves não voadoras conhecidas como aves-do-terror e répteis como os sebecídeos, parentes terrestres dos crocodilianos.
Esse cenário só mudou milhões de anos depois, com o Grande Intercâmbio Biótico Americano, quando predadores mamíferos da América do Norte chegaram ao continente pelo istmo do Panamá. Até lá, segundo o estudo, crocodilianos como Purussaurus ocupavam o topo da cadeia alimentar nos lagos e rios que cobriam boa parte da região.
Ataque ou necrofagia? O que os fósseis ainda não provam
Distinguir um ataque de um caso de necrofagia é uma das tarefas mais difíceis da paleontologia, porque a vítima não pode contar sua versão da história. Nos quatro fósseis, as marcas ficam concentradas na cabeça dos animais, região que os crocodilianos atuais também escolhem para atacar presas que vão beber água na margem de lagos e rios.
Na mandíbula de Xenastrapotherium kraglievichi, os pesquisadores identificaram dois grupos de marcas diferentes. O primeiro, maior e mais fundo, é compatível com um ataque de Purussaurus. O segundo, formado por sulcos paralelos e mais rasos, sugere que um crocodiliano menor comeu os restos depois, provavelmente o sebecídeo Langstonia huilensis, outro predador terrestre do mesmo período.
Já na mandíbula de Granastrapotherium snorki, ainda um indivíduo jovem, um sulco curvo sugere que a presa se debateu durante a captura, comportamento observado em crocodilos atuais quando giram o corpo para arrancar pedaços da carcaça. Os pesquisadores não encontraram sinal de cicatrização óssea em nenhuma das marcas, o que reforça a hipótese de que os animais não sobreviveram ao ataque.
A descoberta reforça a hipótese de que os crocodilianos gigantes controlavam o tamanho das populações de herbívoros nos lagos do Mioceno, papel que crocodilos atuais ainda exercem em rios da África e da Austrália. Os pesquisadores também apontam que esses répteis ajudavam a transportar nutrientes da terra para a água ao arrastar as carcaças das presas para dentro dos lagos.
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