Navios afundados há mais de um século ainda estão envenenando o mar

Pesquisa com mexilhões perto de naufrágios da Primeira e Segunda Guerra revela vazamento de TNT ainda ativo no Mar do Norte.

Um mergulhador naval coleta amostras no naufrágio do submarino UC-30, que afundou durante a Primeira Guerra Mundial. (Crédito: Kathrine Juul Andresen)

Um estudo do Instituto Alfred Wegener, na Alemanha, identificou vazamento de TNT em naufrágios da Primeira e Segunda Guerra no Mar do Norte. Pesquisadores expuseram mexilhões-azuis por semanas perto de três destroços afundados para medir a contaminação.

A revista científica Marine Pollution Bulletin publicou a pesquisa dentro do projeto North Sea Wracks, que já catalogou pelo menos 680 destroços militares no Mar do Norte, sendo 120 em águas alemãs, cerca de 100 em águas belgas e 250 em águas dinamarquesas.

A equipe, liderada por Romina Schuster, do Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Polar e Marinha, em Bremerhaven, na Alemanha, examinou três naufrágios da região. O submarino alemão UC-30 afundou em 21 de abril de 1917 perto da ilha dinamarquesa de Rømø, carregando de 3,1 a 4,8 toneladas de explosivos. Um torpedo atingiu o cruzador leve SMS Mainz em 28 de agosto de 1914 perto de Heligoland, que afundou com 1,5 a 3,4 toneladas de munição a bordo. Já o antigo barco de pesca holandês KW58 Hendericus, requisitado pela Marinha de Guerra alemã para transportar munições, afundou na costa da Bélgica em 27 de novembro de 1944.

“Esses destroços representam uma ameaça significativa e, até agora, subestimada para os ecossistemas marinhos”, afirmam Schuster e seus colegas ao ao Wissenschaft. “Como fontes contínuas e pontuais de poluição, eles liberam gradualmente uma mistura complexa de substâncias nocivas no ambiente marinho, com consequências potencialmente devastadoras para a vida marinha.”

Como o TNT escapa das cascas corroídas

O trinitrotolueno (ou TNT) é um dos explosivos mais usados nas munições dos dois conflitos e se dissolve lentamente na água do mar, o que prolonga sua permanência no ambiente marinho. Com o tempo, a água salgada corrói as cascas metálicas de minas, torpedos e granadas, liberando o composto e seus dois principais produtos de degradação.

Nos sedimentos ao redor do KW58 Hendericus, por exemplo, a concentração de TNT no meio do casco, perto de minas antitanque expostas, chegou a 151,6 microgramas por quilo, segundo as medições da equipe. No UC-30, o composto apareceu em concentrações bem menores, de até 3,1 microgramas por quilo nos poços de minas do submarino. Já os sedimentos do SMS Mainz não continham nenhum traço de TNT ou de seus subprodutos.

Na água do mar, só o UC-30 apresentou TNT dissolvido, em concentrações de até 72,6 nanogramas por litro. Nenhum composto explosivo apareceu na água ao redor do KW58 e do SMS Mainz.

Mexilhões-azuis revelam o estresse biológico

Para medir o efeito biológico da contaminação, os pesquisadores prenderam gaiolas com cerca de 50 mexilhões-azuis (Mytilus edulis) perto de cada naufrágio, por 11 a 14 semanas. Depois, analisaram os tecidos do molusco em busca de sinais de dano celular.

O TNT ou seus produtos de degradação apareceram em quase todos os mexilhões expostos ao UC-30 e ao KW58. Nos animais do UC-30, a concentração média dos metabólitos chegou a 15,6 nanogramas por grama de tecido seco, segundo as medições da equipe, bem acima dos 0,5 nanograma por grama medidos no KW58. Nenhum resíduo apareceu nos mexilhões do SMS Mainz.

Os moluscos expostos ao UC-30 e ao KW58 também acumularam mais lipofuscina, um pigmento que se forma quando a célula sofre dano oxidativo, e mais gordura neutra nos tecidos do que os do SMS Mainz. Ao mesmo tempo, guardaram menos glicogênio, a reserva de energia que o mexilhão usa para se reproduzir e se defender de agressões.

Por que remover a munição é tão difícil

Retirar as munições corroídas do fundo do mar é uma tarefa extremamente arriscada. Como os explosivos já estão degradados, muitos artefatos se desfazem ou liberam o conteúdo tóxico antes de chegar à superfície, e alguns podem explodir durante a manipulação.

Ainda não existe um método seguro para neutralizar as munições diretamente no fundo do mar. Projetos-piloto na Alemanha e o programa europeu REMARCO testam soluções, entre elas robôs capazes de recolher os artefatos corroídos e neutralizá-los no local ou trazê-los com cuidado até a superfície.

“Estamos tentando encontrar as soluções mais cuidadosas para o problema, pois infelizmente não existe um caminho simples para eliminar esses passivos”, diz Katrine Juul Andresen, coautora do estudo e pesquisadora do Departamento de Geociência da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Nem todo naufrágio armado exige remoção imediata. Destroços cobertos por sedimento, como grande parte do casco do SMS Mainz, apresentam risco menor, porque a camada de areia dificulta o contato da munição com a água do mar. Os autores do estudo defendem monitoramento contínuo e uma avaliação de risco mais ampla para localizar onde a contaminação já está em curso e onde ainda pode ser evitada.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.