Uma dose de sangue ajudou cientistas a enganar um câncer que resiste a quase tudo

Nanopartícula camuflada com sangue elimina tumores de mama triplo-negativos em camundongos e reduz metástases em mais de 70%, segundo estudo japonês.

Uma nanopartícula de metal líquido camuflada com sangue eliminou completamente tumores de mama triplo-negativos em camundongos. O tratamento também reduziu a metástase pulmonar em mais de 70% e triplicou a sobrevida dos animais.

O câncer de mama triplo-negativo responde por 15% a 20% dos casos da doença e é considerado o subtipo mais agressivo, porque não tem receptores que sirvam de alvo para terapias direcionadas. Isso deixa a quimioterapia como principal tratamento disponível. A imunoterapia, que mudou o tratamento de vários tipos de câncer, funciona em menos de 20% desses pacientes, porque o tumor costuma reunir grande quantidade de células T regulatórias, que bloqueiam a resposta do sistema imunológico.

A equipe do professor Eijiro Miyako, do Instituto de Pesquisa Multidisciplinar para Materiais Avançados da Universidade Tohoku, no Japão, desenvolveu a solução em coautoria com a pesquisadora Nina Sang. A revista Advanced Science publicou o estudo. A plataforma recebeu o nome de B-LM-DMX-αCD25 e combina metal líquido à base de gálio, uma camuflagem feita com componentes do sangue e duas moléculas que ativam o sistema imunológico contra o tumor.

Como a nanopartícula ataca o tumor em três frentes

O tratamento age ao mesmo tempo sobre três alvos que sustentam a resistência do câncer de mama triplo-negativo.

  1. Depleção das células T regulatórias: anticorpos anti-CD25 na superfície da nanopartícula eliminam essas células dentro do tumor, o que os pesquisadores descrevem como liberar o freio que impede o sistema imunológico de atacar o câncer.
  2. Ablação térmica: um laser infravermelho aplicado por fora do corpo aquece a nanopartícula e leva a temperatura do tumor a 58°C em cinco minutos, destruindo as células cancerígenas e liberando fragmentos do tumor que sinalizam perigo ao sistema imunológico.
  3. Ativação da via STING: o calor do laser libera a droga DMX, presa dentro da nanopartícula, que ativa a via STING (sigla em inglês para Estimulador de Genes de Interferon) e estimula a maturação de células dendríticas, responsáveis por acionar os linfócitos T que atacam o câncer.
Ilustração esquemática do projeto da nanoplataforma B-LM-DMX-αCD25 e seus três mecanismos terapêuticos sincronizados: depleção seletiva de Treg, morte celular imunogênica induzida por fototérmica e ativação da via STING para imunidade antitumoral sistêmica. (Crédito: Eijiro Miyako)

Um disfarce feito com sangue

O revestimento resolve um problema antigo dos metais líquidos usados como agentes fototérmicos, que tem a tendência de se aglomerar e ser eliminado rapidamente pelo corpo antes de chegar ao tumor. Ao misturar sangue à nanopartícula durante a fabricação, a equipe manteve proteínas naturais do plasma na superfície do material.

Esse revestimento funciona como um disfarce. Cobertas de sangue, as partículas passam despercebidas pelos mecanismos de defesa do organismo, do mesmo jeito que um crachá ajuda alguém a circular sem ser barrado num prédio de acesso restrito. Segundo o estudo, essa camuflagem multiplicou por cinco o acúmulo das partículas no tumor, na comparação com nanopartículas revestidas por materiais sintéticos.

Resultados completos em camundongos

Nos testes, o tratamento eliminou 100% dos tumores de mama triplo-negativos, sem recidiva ao longo de todo o período observado. Em um segundo experimento, feito para simular a doença metastática, a nanopartícula reduziu em mais de 70% o número de nódulos de câncer nos pulmões dos animais, na comparação com o grupo que recebeu apenas solução salina.

Os camundongos tratados também viveram mais. A sobrevida média ultrapassou 70 dias, enquanto os animais dos grupos de controle morreram entre 25 e 50 dias após o início do tratamento. A análise dos tumores tratados mostrou aumento de mais de 13 vezes na quantidade de linfócitos T e de 11 vezes no número de células dendríticas, que apresentam fragmentos do tumor ao sistema imunológico.

“Estamos combinando três abordagens diferentes em uma única nanopartícula para superar os mecanismos que permitem que esses tumores escapem do sistema imunológico”, disse Miyako. “Nosso próximo passo é determinar se essa estratégia pode ser aplicada com segurança e eficácia a outros tipos de tumores sólidos e, eventualmente, levada para uso clínico.”

O que ainda falta para o tratamento chegar às pessoas

A equipe testou o tratamento apenas em camundongos, e o caminho até um tratamento para humanos ainda depende de várias etapas. O laser usado nos testes penetra entre um e dois centímetros no tecido, o que hoje limita a terapia a tumores superficiais ou de fácil acesso cirúrgico, como recidivas na parede torácica ou metástases na pele.

Os próprios pesquisadores listam os próximos passos, que inclui testes de toxicologia com doses repetidas, seguindo normas internacionais de boas práticas laboratoriais, e o desenvolvimento de uma versão do laser com maior penetração nos tecidos. A equipe planeja ainda adaptar a plataforma para câncer de pâncreas e câncer de ovário, tumores em que as células T regulatórias dificultam o efeito da imunoterapia.

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Sobre o Autor

Hemerson Brandão
Hemerson Brandão

Jornalista e fundador da Agência Macrocosmo. Atua há 15 anos em comunicação, com foco editorial em ciência, saúde, tecnologia e cultura.